14 de março de 2014

Na Estante 16 - O Estrangeiro (Albert Camus)


Livro: O estrangeiro
Autor: Albert Camus
Editora: Record
Ano: 2013
Páginas: 128


Mersault é um personagem incomum e icônico da literatura do século XX. Sua impassividade diante dos acontecimentos deste romance podem, de início, causar estranhamento ou, até mesmo, certa perplexidade. Adianto que me identifiquei um pouco com Mersault, sua frieza, sua incapacidade de se surpreender com as coisas, a praticidade e o raciocínio lógico, até mesmo sua ironia. Mersault é o protagonista-narrador, o tom de sua narração é exatamente protocolar, reflete o trabalho de escriturário que exerce, sem quase ou nenhum envolvimento emocional. Mersault reflete o pensamento do homem atual, sem muita perspectiva e expectativa do mundo, que desvincula-se das crenças, desencanta-se com o senso comum, não comunga de seus valores. Por isso que não se surpreende com os preparativos do enterro de sua mãe (onde não chora e não manifesta quase nenhuma tristeza), o romance com uma colega de trabalho, o assassinato do árabe que ele próprio cometeu e, também, a posterior sentença proferida no seu julgamento. Conciso e cruamente preciso (características das narrativas de Albert Camus), o protagonista destila suas impressões sobre os fatos e seu relacionamento distanciado com as outras personagens e a sua serenidade revela uma liberdade de sua consciência diversa das outras pessoas. Uma vez que não cria ou possui laços que o atenham ao mundo como um todo, Mersault circula por ele com uma fluidez impensada. Mersault é a própria negação. Uma negação do entorno e até de si mesmo. Daí o absurdo recorrente na obra de Camus, autor ainda tão moderno neste caudaloso século XXI.

Nenhum comentário:

Postar um comentário