12 de abril de 2014

A prova do recalque


Quando eu li sobre a famigerada e controversa questão de uma prova de filosofia taxando a funkeira Valeska Popozuda como “grande pensadora contemporânea” pensei que se tratasse de uma pergunta de concurso público ou algo parecido. Depois verifiquei que era a respeito de uma prova aplicada numa escola pública em Brasília. A questão fora elaborada pelo professor Antonio Kubitschek que alegou ter abordado e discutido em sala de aula sobre a influência dos artistas e da mídia na vida e na criação de valores na sociedade e que a intenção dele era mesmo chamar a atenção. Em suas palavras, numa entrevista à Rádio Band News: “A partir do momento em que a Valesca faz uma música tão repercutida a ponto de a expressão ‘beijinho no ombro’ ser usada até pela mídia, ela está passando um conceito. Se considerarmos uma tendência filosófica que diz que todo mundo pode ser um pensador, desde que consiga criar um conceito, eu acho que a Valesca é sim uma pensadora”. Em outro momento, o professor reclama que a mídia se interessa apenas por fatos negativos, que denigrem o ensino. Convidou alguns jornalistas para presenciarem uma exposição de fotografia organizada pela escola, porém nenhum se interessou em cobrir o evento.
Não sei vocês, mas considero a explicação do professor muito plausível. Só não entendo esta celeuma toda em torno deste caso. Pessoas já estavam anunciando o armagedom da educação brasileira, que segue em franca decadência, “aonde este mundo iria parar e os nossos jovens?”. Acredito que 99% das pessoas, antes de compartilhar a notícia com indignação sequer se preocuparam em tentar entender as intenções do professor. Ele se propôs a dar uma aula voltada aos temas contemporâneos que certamente gerou muito mais debate entre os alunos. Fez aquilo que sempre foi apregoado por diversos pedagogos: considerar a realidade dos alunos e o seu contexto social, trazendo para o ambiente escolar os assuntos de interesse geral, que possam despertar a sua atenção.
O funk continua sendo alvo de críticas pelas pessoas de “bom gosto”. Não ouço funk, apesar de sua batida envolvente, também me impressiono com o teor explícito de suas letras e a desafinação de seus intérpretes, no entanto é preciso entender o ritmo como expressão de uma classe social. Por que fala tão próximo a essas pessoas? Ostentação ou não, proibidão ou não, sexual ou não, o funk está na moda já há muito tempo. Assim como o axé music esteve pelos longínquos anos 90. Alguém se lembra quando quase todo mundo requebrava as nádegas e a cinturinha para lá e para cá (incluindo crianças e adolescentes) os versos de duplo sentido do “É o Tchan” e companhia? Beto Jamaica, Cumpadre Washington, Carla Perez estavam na crista da onda. Mesma posição em que se encontram hoje os diversos Mc’s, e a funkeira do “Beijinho no Ombro”, com maior longevidade do que o previsto. Figuras estas oriundas, em sua maioria, da periferia, que pouco se importam com o que pensam seus detratores (ou recalcados, como diria o jargão tão em voga ultimamente). A repercussão positiva no programa Esquenta ou negativa nas redes sociais tanto faz para eles, é repercussão da mesma forma. Seus nomes continuam em evidência.
Concordo com o professor Antonio Kubitschek quando afirma que se fosse algum artista da MPB, como Chico Buarque ninguém comentaria. Poderia até acontecer, num caso muito excepcional, diversos elogios de pessoas admirando os versos do compositor de “A Banda”, entre outros clássicos, certamente ocorreria uma revisão de sua obra para encontrar, quiçá, vestígios de um pensamento filosófico insuspeitado, comparações com determinadas correntes de pensamento. No entanto, existem letras da cultuada MPB que beiram o medíocre e o patético, só que embaladas numa roupagem sofisticada e pseudointelectual. Falar que gosta de MPB serve mais ao ego do indivíduo que expressa sua preferência do que exatamente aos seus ouvidos.
Antes de tudo, por mais chocados que fiquemos, é necessário analisar os fatos com distanciamento e evitar ao máximo interferências daquilo que julgamos certo e errado, dos nossos valores e nossa cultura. Alteridade antes de tudo, antes dos discursos inflamados de amor e ódio. Alteridade antes do desespero e da indignação. Coisa pouco comum nas redes sociais hoje em dia. Um pouquinho de contextualização não fará mal a ninguém.


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