5 de abril de 2014

Meu canudo de papel


 Na sexta-feira retrasada retirei o meu diploma na faculdade. Engraçado, mas o sentimento de conclusão do curso de Letras, de dever cumprido só se concretizou por completo agora com o papel em mãos, comprovando a minha licenciatura. A sociedade vive do registro. A palavra escrita desde os primórdios, quando o ser humano desenvolveu e apurou a noção da linguagem, tornou-se veículo para comprovações, ganhou status definitivo de documento, de prova cabal. Sou um homem de palavra, mas se puder formalizar isto através de algum documento, um e-mail, um SMS que seja, as coisas ficarão mais tranquilas e mais passíveis de confiança.
Esta mania do protocolo, exigência do documento oficial, de um número de identificação advém do nosso senso de prevenção. É mais fácil cobrar o que pode ser mostrado depois na folha de papel ou na tela do computador ou no arquivo anexo do e-mail do que apenas relevar ou fiar-se na palavra alheia, na promessa oral, na frase que garante, mas que não pode cumprir, ou pior, desmentir o dito. Já cantou Elis Regina com o maestro Jobim: “Pois é, fica o dito e o redito por não dito”. No meu caso não basta dizer: “estou formado”. No máximo me pedirão: “Mas e o diploma?”. Ou seja, sem o velho canudo nas mãos minhas afirmações não valerão nada.
A palavra proferida ainda tem força (E Deus criou o universo pelo verbo, não foi?). Por exemplo, uma sentença de condenação ou absolvição proferida pelo juiz, o anúncio do casamento entre duas pessoas pelo padre ou pastor. No entanto, a certidão de casamento, no caso do matrimônio, tem mais poder de comprovação do que a cerimônia do casamento na igreja. É a certidão que será cobrada e aceita pelos órgãos oficiais (Assim como a teoria criacionista certamente foi transposta para a Bíblia Sagrada para ter maior validade entre os fiéis e crentes). Mas nem tudo é negativo: Imagina o que aconteceria se toda a tradição oral das mitologias de cada país, mesmo que transferida de geração à geração, não fosse transcrita. Não existiria a Ilíada ou a Odisseia, por exemplo, ou estas sofreriam severas transformações, descaracterizando-se totalmente. Ainda bem que Homero decidiu fazer esta compilação.
Mesmo assim, toda esta necessidade, claro, torna ainda mais burocrática nossa vida e a interação com os outros setores que regem a sociedade. Tanta papelada, tantas filas, tanta exigência de se atestar com os devidos registros. Acabamos vivendo num mundo kafkaniano onde o protocolo tem mais importância. Como se estivéssemos em meio ao romance O Processo, sem saber do que somos acusados, precisando provar tudo. Pelo papel e nada mais.

Um comentário:

  1. Ah este mundo kafkaniano meu amigo...vamos protocolar. Provavelmente agora eu terei que me logar em alguma conta, provar que sou eu mesma por senha e se não bastar também terei que confirmar através de caracteres ilegiveis, rsrsrs...Parabéns, belo texto como sempre...saudade :D

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