18 de abril de 2014

Solapado!

O dicionário Aurélio define “solapar” como aluir, abalar, arruinar, destruir. Solapado! Ele descobrira a palavra nas aulas da faculdade e, de repente, ela surgia como uma tradução de si mesmo, do seu estado existencial e físico. De onde se oriunda este cansaço? Marasmo do fim do dia. Marxismos na cabeça após o trabalho. Uma neurastenia misturada ao tédio amalgamado à impaciência. Nada de novo. Nadica de nada. Apenas a espera. Grande expectativa entrecortada de sono, muito sono. Aquele acumulado pelos correr dos anos, acumulados pelos semestres de estudo, de noites mal dormidas, espaçadas e curtas, compensadas no banco do metrô ou no assento do ônibus. Numa pescada só. Enfim, tinha uma resposta, um adjetivo que o definisse. Ele tinha a consciência, desde as aulas, de que toda a sua ancestralidade padecia do mesmo mal. Gerações anteriores que viviam ainda em épocas menos tolerantes. Todo o preconceito e toda aculturação que sofreram em sua trajetória. Frutos de ideologias torpes que ainda encontram ecos na atualidade, em discursos retrógrados de apresentadores de televisão, de incitações de comentaristas irresponsáveis. Sentimento que perpassa sua pobre alma, seu bolso pobre. Seus pobres hábitos e seu entorno pobre. Qualquer um. Todo ser humano talvez já tenha se sentido solapado. Por N motivos. Por um X sem solução, impossível de encontrá-la com uma simples regra de três. Qualquer ser pode sentir-se assim independente dos determinismos que insistem em condená-lo ou elevá-lo, querendo diminuir seus méritos e sua luta. Insistindo em dirimir sua persistência. Luta esta que permanece diária. Tenazmente diária. E de tanto esforço, de tanta porrada levada aqui e ali. Tapas na cara, socos no estômago, chacoalhões da van apressada. Permaneces assim, solapado. Sentimento habitual. Anterior a tudo. Secular.

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