17 de maio de 2014

Silêncio

O silêncio dá medo
Porque tudo, nele, se manifesta
Todas as coisas comunicam
O ruído da humanidade inteira
Sentindo-se pelos ouvidos sucateados
E o sono da madrugada se esvai
Tão atento ao que está ao redor
Ao gemido do apartamento à frente
Ao choro infantil do quarto ao lado
À lembrança do filme de horror
Ao automóvel que escapa um roncar
Que não é de sono
Que não é do meu sono
Nem do outro
E o silêncio incomoda
Como zumbido do mosquito junto à orelha
E o silêncio incomoda
Porque as palavras precisam ser ditas
E não o são
O calar que consente o indesejado
O calar-anuência daquilo que é recôndito
No espaço não se propaga o som
E isso oprime o astronauta
Na rua se propagam todos os decibéis ruídos
E incomoda o transeunte, o morador
Que apenas deseja o silêncio do lar
(E não o terá, visto que não é espaço)
Ou irá temê-lo pela indiferença que o silêncio conota
Receios de conversas vazias
Horrores de incomunicabilidade
O nada que é silêncio
Que comunica tudo
Todas as coisas

E que dá medo.

12/05/2014

2 de maio de 2014

#SomosTodosHumanos



Tentei comer uma banana mas ela estava muito podre. Postar a foto desta tentativa na Internet também não era uma boa ideia, tão espontâneo que seria. O fato é que estou refletindo aqui se somos todos macacos mesmo. Que originamos dos símios, isso até Darwin sabia (ha!). Hummm... Nossos ancestrais não merecem tamanha comparação. Prefiro reconhecer que nós, na verdade, somos todos humanos... E as reticências são um pesar sobre esta constatação. Reconhecer a humanidade é dar-se conta principalmente daquilo tudo que erramos. Como diz a gíria popular: “Ramelamos na missão”. Raça evoluída, que nada! Ao que tudo indica caminhamos decididamente para trás. Apoiamos aquilo que há uma hora éramos contra. Somos dotados da capacidade da hipocrisia e da conveniência. Posso ser um defensor dos direitos humanos e alguém a favor da pena de morte e da tortura segundos depois, sem que as maçãs do rosto ruborizem pela mudança repentina de opinião. Queremos a volta da ditadura e a oficialização do apartheid, pois já o vivemos decerto, no entanto ainda o nomeamos aqui como um regime democrático. Trazemos conosco o preconceito, sob o disfarce da mente aberta a tudo e a todos. Coisas comuns ao nosso gênero, à nossa espécie. Nas rodas de amigos, o apoio ao gay, à inclusão social do negro e do pobre. Intimamente repudiamos este monte de bichas desavergonhadas e temos medo na presença de alguém de tez escura no retorno noturno para casa. Sonhamos com a igualdade de oportunidades, melhor distribuição de renda e o fim da miséria, no entanto desperdiçamos tempo e dinheiro em coisas inúteis e ignoramos o mendigo que permanece invisível aos nossos olhos e incapaz de tocar a sensibilidade do coração calejado de tantos problemas. Sou humano, passível de erro, passível de injustiças. Daniel Alves também. Até o Neymar e o Luciano Huck com todo o seu oportunismo e a necessidade inata em estrelas do futebol e da televisão de aparecer e parecer bons moços. E continuamos a remar com nosso barco, redemoinho em que nos encontramos, girando em círculos, concêntricos e egocêntricos, rumo ao meio que nos traga sem que percebamos, tão sequiosos de postar a derradeira foto no Instagram ou no Twitter ou nos lamentarmos, mais uma vez, no Facebook. Sim, #SomosTodosHumanos...

1 de maio de 2014

Na Estante 19 - Domingos Sem Deus (Luiz Ruffato)


Livro: Domingos sem Deus
Autor: Luiz Ruffato
Editora: Record
Ano: 2011
Páginas: 112


Luiz Ruffato capitaneou todas as atenções na Feira Literária de Frankfurt do ano passado onde, num discurso polêmico, falou sobre o Brasil e de todas as suas injustiças e desigualdades sociais. Houve quem discordasse da abordagem dura do autor ao criticar o seu país em terras estrangeiras, houve quem o aplaudisse pela coragem. Ao ler o livro que fecha a série de romances do projeto Inferno Provisório, Domingos Sem Deus, nós entendemos que seu discurso foi totalmente coerente com a obra que se propôs a escrever: um painel da classe operária e trabalhadora, a sub-vida que estas pessoas levam, os sonhos desmoronados por uma série de fatores, a esperança de uma vida melhor que geralmente se encontra na cidade grande, porém esta metrópole, como numa armadilha, acaba engolindo-as por completo. Não li os outros livros do projeto Inferno Provisório, mas a leitura isolada deste último volume não interfere em nada o entendimento e a fruição do texto. São estórias de desenganos, desesperança, de opressão e crueza poucas vezes vistas na literatura contemporânea. São operários, empregadas, bêbados, jornalistas, mecânicos, mães e pais de família, todos que correram atrás de um objetivo e não o alcançaram levando-os ao alcoolismo, à depressão, a lembranças nostálgicas de um passado que foi muitas vezes pior do que suas vidas presentes. Ruffato recupera o léxico e a sintaxe destas personagens em textos de múltiplas vozes e trajetórias semelhantes. Eles estão ainda à procura do momento mais “arco do triunfo” que tiveram, tão desencontrado quanto suas existências. Domingos Sem Deus traz estórias duras que muito nos lembram a dos nossos pais, em sua maioria migrantes, que abriram mão de seus próprios sonhos em prol da criação de sua prole, almejando uma vida digna e muitas vezes sequer adquirindo um resquício desta dignidade.