1 de maio de 2014

Na Estante 19 - Domingos Sem Deus (Luiz Ruffato)


Livro: Domingos sem Deus
Autor: Luiz Ruffato
Editora: Record
Ano: 2011
Páginas: 112


Luiz Ruffato capitaneou todas as atenções na Feira Literária de Frankfurt do ano passado onde, num discurso polêmico, falou sobre o Brasil e de todas as suas injustiças e desigualdades sociais. Houve quem discordasse da abordagem dura do autor ao criticar o seu país em terras estrangeiras, houve quem o aplaudisse pela coragem. Ao ler o livro que fecha a série de romances do projeto Inferno Provisório, Domingos Sem Deus, nós entendemos que seu discurso foi totalmente coerente com a obra que se propôs a escrever: um painel da classe operária e trabalhadora, a sub-vida que estas pessoas levam, os sonhos desmoronados por uma série de fatores, a esperança de uma vida melhor que geralmente se encontra na cidade grande, porém esta metrópole, como numa armadilha, acaba engolindo-as por completo. Não li os outros livros do projeto Inferno Provisório, mas a leitura isolada deste último volume não interfere em nada o entendimento e a fruição do texto. São estórias de desenganos, desesperança, de opressão e crueza poucas vezes vistas na literatura contemporânea. São operários, empregadas, bêbados, jornalistas, mecânicos, mães e pais de família, todos que correram atrás de um objetivo e não o alcançaram levando-os ao alcoolismo, à depressão, a lembranças nostálgicas de um passado que foi muitas vezes pior do que suas vidas presentes. Ruffato recupera o léxico e a sintaxe destas personagens em textos de múltiplas vozes e trajetórias semelhantes. Eles estão ainda à procura do momento mais “arco do triunfo” que tiveram, tão desencontrado quanto suas existências. Domingos Sem Deus traz estórias duras que muito nos lembram a dos nossos pais, em sua maioria migrantes, que abriram mão de seus próprios sonhos em prol da criação de sua prole, almejando uma vida digna e muitas vezes sequer adquirindo um resquício desta dignidade.

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