14 de junho de 2014

Na Estante 20 - Poesias de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


Livro: Poesias de Álvaro de Campos
Autor: Fernando Pessoa
Editora: FTD
Ano: 1992
Páginas: 300


Álvaro de Campos é o meu heterônimo de Fernando Pessoa favorito. Gosto de seu pessimismo, do sentimento de não pertencimento ao mundo, das questões metafísicas que levanta em seus versos e o grau de revolta e emotividade que dão tom aos seus poemas. Dos três heterônimos famosos, Álvaro de Campos é o mais voltado à modernidade, traduz o progresso (assim como o Futurismo do início do século XX), o ritmo das grandes metrópoles, a frieza dos relacionamentos e a incapacidade de lidar com as pessoas. Ao contrário de Marinetti (líder da vanguarda futurista) que via nas máquinas um norte para a humanidade, Álvaro de Campos exalta um tanto quanto ressabiado toda esta industrialização e avanços tecnológicos, pois sabe no que isto pode resultar. Álvaro é uma bela contradição, sua repulsa à vida social também esconde um desejo de parecer o outro, de seguir as convenções sociais, muito para não sofrer tanto com as reflexões e preocupações que o assombram. Depois o eu-lírico explode em poemas marcantes como “Lisbon Revisited”, que canta o estar contra tudo o que a sociedade impõe ou espera que sejamos, ou “Se te queres matar...”, um convite persuasivo ao suicídio, ou nas odes marítima e triunfal e em homenagem a Walt Whitman. Existe muito poema marcante, difícil enumerar alguns entre tantos carregados de emoção. A antologia de poesias de Álvaro de Campos demonstra o motivo de ele ser o mais passional de todos os heterônimos, aquele que mais se expunha e se desnudava diante do leitor, que, logo, também se reconhecia em seus versos.

Vende-se


Nada na vida é de graça. Existe sempre alguém que se vende como a prostituta das esquinas. Ofertamos uma imagem que não temos, anunciamos benefícios que por vezes não podemos proporcionar. Propagandas espalhando enganos por aí. Sou da política da desconfiança. “Quando a esmola é demais...”, emula o ditado popular. Se até São Tomé exigia provas concretas e visíveis, então por que eu, reles mortal, pobre-diabo, Zé-ninguém, faria diferente? Então não dá para se deixar enganar pelas aparências, mais um conselho fundamental de outra máxima popular para a vida em sociedade. O trabalho explora nossos corpos e mentes em troca de um salário. Exige, em sua maioria, uma disponibilidade e a anulação da vida pessoal em detrimento da pró-atividade ou do comprometimento. Pelos menos muitos patrões ainda possuem esta mentalidade do tempo dos escravos e querem se enganar que todos se predisponham a isto. Em troca da boa figura, da venda de outro eu, pagamos os tributos da tecnologia e nos tornamos vitrines pelas redes sociais, pela formalidade ou não dos e-mails, pelo SMS que pode chegar a qualquer momento. Somos todos vendidos, na camisa de marca ou na grife inacessível à plebe, na tentativa de ser original, na caminhada de rebanho junto ao que é moda. A vida é uma ininterrupta negociação. Permutas e escambos. Compram-nos alguns. Alugam-nos alhures. Emprestam-nos sempre. Somos meros produtos da existência.

7 de junho de 2014

Coração Papiro


Coração papiro que anuncia o primitivo, o primórdio de um sentimento. Em suas páginas que abrem-se velhas, amareladas, carcomidas. Coração corroído pelo tempo. Coração que carrega inscrito em si hieróglifos indecifráveis, símbolos de línguas e emoções passadas, marcas de sangue e lágrimas, daquilo que se fez história. Daquilo que nem é quase memória, quase a perder-se nas horas, nos milhares de anos, nos ecos que ainda ouvem-se das ruínas e chegam aqui no seu ininterrupto pulsar que sequer a morte com o correr dos segundos fez fenecer e extinguir. Ecos de civilizações perdidas, decadentes. Papiro que é o pré-papel, pré-documento, registro ancestral do que vivi. Coração que em sua madeira retrai-se num rolo, encerrado na sombra e no pó, exalando o mofo do museu, abre-se à curiosidade alheia, revelando-se inteiro, sem nunca mostrar-se verdadeiramente. Só quem o manipulou em priscas eras sabe os segredos ali contidos por trás das suas rugosidades, da tinta que o percorreu e o definiu. Coração papiro, morto e eterno ao mesmo tempo.