7 de junho de 2014

Coração Papiro


Coração papiro que anuncia o primitivo, o primórdio de um sentimento. Em suas páginas que abrem-se velhas, amareladas, carcomidas. Coração corroído pelo tempo. Coração que carrega inscrito em si hieróglifos indecifráveis, símbolos de línguas e emoções passadas, marcas de sangue e lágrimas, daquilo que se fez história. Daquilo que nem é quase memória, quase a perder-se nas horas, nos milhares de anos, nos ecos que ainda ouvem-se das ruínas e chegam aqui no seu ininterrupto pulsar que sequer a morte com o correr dos segundos fez fenecer e extinguir. Ecos de civilizações perdidas, decadentes. Papiro que é o pré-papel, pré-documento, registro ancestral do que vivi. Coração que em sua madeira retrai-se num rolo, encerrado na sombra e no pó, exalando o mofo do museu, abre-se à curiosidade alheia, revelando-se inteiro, sem nunca mostrar-se verdadeiramente. Só quem o manipulou em priscas eras sabe os segredos ali contidos por trás das suas rugosidades, da tinta que o percorreu e o definiu. Coração papiro, morto e eterno ao mesmo tempo.

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