23 de outubro de 2014

Não falta somente água em SP



Saída de emergência à esquerda! Gotículas de ultraconservadorismo caem do céu. Ventanias de exclusão social. Calorão de preconceito regional. A cidade queima nesta estiagem trágica, no entanto não é somente água que falta em São Paulo. Não são apenas as gotas que não caem de nossas torneiras, mas a ficha do paulistano também. Uma cidade que posa de moderna cosmopolita, diversa, esconde pessoas que querem mudanças e, contraditoriamente, são avessas a elas, quando estas transformações as afetarem, quando mudar significar perder privilégios em detrimento do outro. Toda esta ojeriza a ciclovias, nordestinos, gente “diferenciada” não condiz com a pluralidade citadina que nos deu Augusta, Paulista, São João e Ipiranga, por exemplo.
Renegar pobres, nordestinos, estrangeiros é não enxergar aqueles que fizeram a  história desta cidade, que levantaram este lugar e o tornaram o que é e que continuam em seus bastidores, fazendo-a funcionar sempre. Reclamar de ciclovias é contribuir para o infarto iminente das ruas e avenidas que não suportam tantos veículos, uma cidade de pés amarrados que mal podem andar. Cidade de gente estudada, esclarecida, que tem medo de uma ditadura comunista. Sério? Em pleno 2014? Ou ainda estamos revivendo 1964? Gente que range os dentes e fala os mais baixos e inacreditáveis impropérios na Internet, na caixa de comentários de matérias que defendem um olhar diferente do seu. Pessoas que não aceitam o debate e que não leem ou interpretam aquilo que está escrito na tela. Na Internet, nunca o analfabetismo funcional mostrou-se tão evidente e também a falta de leitura que conduz aos erros crassos de ortografia também.
Cada um tem seu ponto de vista. Todos têm as suas crenças. As ideias nunca serão totalmente convergentes. E daí se eu voto no PT e você no PSDB? E daí se ele generaliza a política, os meios de comunicação, as pessoas ao redor, distribuindo rótulos, destilando clichês? A vida é feita dos contrários e a tolerância do diverso. São Paulo sempre trouxe em si suas contradições, todo ano reune, quando conveniente, os diferentes públicos: a cidade que abriga a maior Parada Gay do mundo também agrupa milhares de evangélicos na Marcha de Jesus; a capital que aparta periferia e abastados os reúne ao centro, na Virada Cultural. Ainda amo a minha cidade e quero o melhor para ela, pouco me importa se a preocupação de uma pequena parte da população é poder viajar para Miami no próximo fim de ano. A minha ainda é a de conseguir pagar as contas de sempre. Se a sua mente prevalece à direita. Meu coração, felizmente, fica do lado esquerdo do peito.

19 de outubro de 2014

Poema dificultoso



A dificuldade nasce
pedra no sapato
companhia da mosca
chuva repentina
assalto a mão armada
sono brotando na reunião
A dificuldade surge
bolo transbordado no forno
arroz queimado
feijão mal cozido
na panela de pressão
A dificuldade incomoda
impaciências de filas
queixas ao telefone
tédio das redes sociais
o clichê no refrão
A dificuldade
Piora Recrudesce
Difícil de demover
Difícil de refutar
Difícil de esquecer
A dificuldade
Nos prega ao chão.

12 de outubro de 2014

Na Estante 23 – Infância (J. M. Coetzee)


Livro: Infância
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2010
Páginas: 152



A infância e a adolescência sempre renderam ótimas obras literárias de cunho memorialista. Infância, do sul africano vencedor do Prêmio Nobel J. M. Coetzee, evoca também este período marcante e confuso de nossas vidas numa trilogia composta também pelos títulos Juventude e Verão. Poderia ser mais uma obra nostálgica, mas o narrador da estória, claramente inspirada na própria infância do autor de Desonra, faz toda a diferença e desfaz qualquer ambientação difusa, mesmo amparando-se no olhar curioso e inquietante de uma criança. A começar pelo uso dos verbos no presente que dá um duplo sentido dos acontecimentos que estão sendo transpostos para este romance. Por mais que o recurso cause ao leitor uma sensação de fatos acontecendo simultaneamente à leitura, sabemos que o próprio autor faz um retorno ao seu passado, não há como deixar a impressão de que as situações são rememoradas, num texto claramente autobiográfico. Sob o olhar do jovem Coetzee acompanhamos, de forma velada, os acontecimentos sociais de uma África do Sul cuja língua se dividia entre o inglês e o africânder, o tratamento preconceituoso dado aos negros (que deixa o garoto totalmente constrangido) e sua precária condição social; a educação rígida que recebia nas escolas que também possuíam seu modo de segregação (além dos professores que incutiam a cultura do medo com as varas que agrediam os alunos que não se comportassem); as crises familiares, a admiração da força da mãe, sempre presente e disposta a protegê-lo, fato que deveras o incomoda e o acomoda, o ódio implícito ao pai e certo desprezo pelo irmão, a estadia prazerosa na fazenda da família do pai, a falta de adaptação ao novo bairro onde foi morar. Infância é a África do Sul pós Segunda Guerra vista pelos olhos inquisidores de uma criança que percebe os contrastes do país através do microcosmo familiar e dos papéis sociais exercidos por negros, brancos, africânderes e ingleses. A infância representada por Coetzee não está isenta da dureza do mundo e isso reflete na sua prosa igualmente rochosa e arisca, que retrata um ser humano em formação, num constante devir e amadurecer.