1 de janeiro de 2015

É muita sofrência, Pablo!




Dos bares da cidade, onde a dor de cotovelo encontra o seu habitat natural, ecoa a sua voz de tom agudo. Técnica vocal para alcançar não somente as maiores notas musicais assim como os variados ouvidos atentos à sua canção, mesmo que involuntariamente, tamanha a insistência. Tu resgataste a velha máxima do “Homem não chora”, tão antiga quanto o Matusalém. Graças a ti, descobrimos o que é sofrência, a sofrência de viver um amor, mas sem chorar, pois já sabemos o motivo e o repetes com frequência nas caixas de som e amplificadores espalhados por aí. Resgatar esta convenção tão machista numa letra lacrimosa acaba sendo um tanto quanto conflitante entre sua essência e mensagem, porque, se não choras, segundo as regras que a sociedade impõe ao homem desde cedo, despertas esse sentimento primitivo, inerente à nossa condição humana e indissociável da nossa infância, a nossa primeira manifestação de vida, o chorar estridente como tuas melodias.
Dor de amor é um gênero à parte no cancioneiro de qualquer nação (vejam a Adele, inglesa, que fez fama, sucesso e grana com um disco repleto de “fossas”), encontrou expressão na tradição caipira e sertaneja brasileira, recrudesceu e ganhou estilo mais kitch no gênero denominado depreciativamente de brega. Surgiu o arrocha que deve ser uma variante disso tudo e mais um pouco e tu, Pablo, misturaste tais ritmos em sua letra que pretende-se romântica e trágica. Nos bares encontraste um local de expressão, em nossos ouvidos incrusta tenazmente, tamanho sofrimento que a vida não pode suportar (diria que meus tímpanos também, perdão). Espero apenas que a famigerada canção (que tem feito lacrimejar os mais brutos corações) não tenha sido inspirada em fatos reais, pois deve ter sido uma experiência tétrica e traumática, decerto.
Eu sei, Pablo, é muita sofrência para uma música só (ainda mais quando ela é executada centenas de vezes no mesmo dia). Assim como meus ouvidos, sem querer, identificam estes pesares a partir do momento em que um ouvinte se dispõe a escutá-lo num volume tão alto, mais alto que seu timbre, numa rua qualquer. Pelo visto, a minha sofrência não tem hora para acabar (ou será substituída por outra bem pior).

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