19 de janeiro de 2015

Empírico




Para esfriar um copo de leite com chocolate ou café muito quente basta pegar outro copo e derramar o conteúdo de um no outro diversas vezes. Aprendi que esta técnica funciona, pois o calor do líquido é transferido para o outro copo vazio, que logo, ficará quente. Ajuda também assoprar durante este processo. Existem gestos que nos remetem à infância. Esta simples atividade ensinada por minha mãe (e acredito que, por quase todas as mães e pais do mundo) carrega toda a sabedoria do mundo ou, como dizem os especialistas, o saber empírico. Aquilo que aprendemos de acordo com as nossas vivências, com as diversas tentativas e erros. Os sábios conselhos que até hoje se fazem válidos e úteis: “Leva a blusa porque vai esfriar”, “Não esquece o guarda-chuva para não voltar ensopado para casa”, “Não dê ouvidos a estranhos”, “Nunca aceite nada de estranhos”.
Claro que, com a vida adulta, tendemos, naturalmente, a querer contestar e refutar todas essas advertências, no alto de nosso conhecimento recém-maduro. Mas o frio que brota do nada, a chuva que rompe o céu ou até mesmo o perigo que nos espreita mostram o quanto estamos equivocados. A tradição africana diz que quando um idoso falece, morre uma biblioteca junto com ele. Justamente aquela sabedoria que ele apenas acumulou com o passar dos anos. E nos vemos no mesmo caminho quando, percebendo-nos mais velhos, mais experientes, damos menos ênfase a determinadas coisas e também nos colocamos mais serenos diante de outras situações, pois justamente as coisas e as situações não nos surpreendem mais ou não causam aquele furor da juventude, a pressa e a necessidade de ter tudo para si, de abraçar o mundo, de fazer dez coisas ao mesmo tempo (e nenhuma direito).
Graças ao saber empírico aprendemos a viver simplesmente. O saber que o livro carrega, claro, é informação e conhecimento inquestionável, que levamos conosco e nos diferencia em nossa trajetória terrestre. No entanto, apenas a vivência diária (com as carícias e os tapas da existência) nos dará o jogo de cintura necessário para improvisar neste mundo cada vez mais imprevisível.

Um comentário:

  1. Ouvi a sua voz, lendo o texto...
    Mas você relatou com perfeição, a nossa experiência faz com que tenhamos humildade de reconhecer a sabedoria daqueles que viveram mais que a gente.
    Gizelia

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