1 de fevereiro de 2015

Na Estante 32: Nove Noites (Bernardo Carvalho)


Livro: Nove noites
Autor: Bernardo Carvalho
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2006
Páginas: 152


O tema do suicídio foi o que me chamou a atenção no romance de Bernardo Carvalho, talvez, junto com “Mongólia”, o livro mais celebrado do escritor e jornalista. O primeiro contato que tive com a literatura de Bernardo Carvalho foi através do romance “O Filho da Mãe” (comentando neste blog, clique aqui para lê-lo). Não tinha sido uma boa experiência de início e apenas depois conseguiu conquistar minha atenção leitora totalmente.
“Nove Noites” também é uma narrativa que se faz por caminhos tortuosos, mas o mistério envolvendo a figura do jovem antropólogo americano Buell Quain e as causas do seu trágico suicídio em 1939, aos 27 anos, é um dos chamarizes para o insistir nas páginas deste livro. Temos o narrador que tenta refazer a trajetória do antropólogo durante a sua estadia no Brasil enquanto ele estava na companhia dos índios krahô, que vivem no Tocantins. O narrador busca as motivações do ato extremo de Quain através das cartas que ele mandou a familiares, amigos e pessoas da universidade que supervisionavam sua pesquisa e expedição, além de entrevistas com algumas destas pessoas. Essa perspectiva funde-se às vivências do próprio escritor junto ao pai durante as visitas de negócios deste à região do Xingu (que o narrador, quando criança, comparava ao próprio inferno) e quando ele se encontrava à beira da morte num hospital.
O processo de pesquisa de Bernardo Carvalho, que também passou uma temporada na tribo dos índios krahô para obter informações a respeito de Buell Quain, não foi uma experiência gratificante e, até por isso mesmo, o autor apresenta um olhar pouco elogioso dos indígenas, sua visão desta convivência vai na contramão da abordagem, em geral, condescendente de especialistas e estudiosos. Fora isso tem a presença do engenheiro Manoel Perna (este também fictício), que teve contato direto com Buell Quain durante nove noites antes de o antropólogo retornar à tribo e dar fim à sua vida. Através destes múltiplos olhares sobre a persona misteriosa de Quain que o autor tenta dar coerência e unidade ao romance e que nem ele consegue apreender num todo, apenas tem vislumbres do que pode ter sido e acontecido. É essa personagem fragmentada com quem os leitores terão contato.

É clara a intenção de Carvalho fazer ficção com um fato real, apesar de toda a investigação que levaria a um inconcluso material jornalístico (foi através de uma resenha de jornal, onde o caso foi apenas mencionado, que o escritor teve conhecimento da história de Quain e se interessou em explorá-la). “Nove Noites” tenta, através da ficção, fazer as amarras possíveis de uma vida, ou reconstruí-la ao menos, cujas explicações todas estão enterradas na floresta e cuja verdade ninguém mais terá acesso.

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