13 de fevereiro de 2015

Na Estante 33: Dom Casmurro (Machado de Assis)


Livro: Dom Casmurro
Autor: Machado de Assis
Editora: Globo
Ano: 1997
Páginas: 217



A tradição diz para não confiarmos em narradores em 1ª pessoa. Tudo que lemos no romance, conto ou crônica com este tipo de narrador é fruto de uma visão particular e subjetiva das coisas, de um determinado ponto de vista, um olhar parcial dos fatos. Pronto. Tendo em vista este conselho, você pode se aventurar e se deliciar com Dom Casmurro.
O romance de Machado de Assis, entre outras tantas obras-primas que ele escreveu, narra com primor a história de amor entre Bentinho e Capitu. Bentinho decide recontar este relacionamento desde a infância até a vida adulta, tentando, na velhice, trazer a juventude e a inocência de outrora, unir estes dois lados tão distantes através da escritura de um livro. Ele relembra a infância e adolescência na casa de Mata-Cavalos, no Rio de Janeiro, quando se dá conta dos sentimentos que nutre pela vizinha e amiga Capitu, após ouvir a conversa de José Dias, o agregado da família, lembrando a mãe de Bentinho da promessa que ela fizera de transformar o filho num padre e do perigo iminente da aproximação cada vez maior dele com Capitu.
“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, “Olhos de ressaca”, a protagonista deste romance, uma das maiores personagens femininas da nossa literatura, senão a maior, é retratada como alguém que consegue disfarçar os seus segredos, dominar os sentimentos, alguém que tem um grande autocontrole de si, enquanto Bentinho mal consegue esconder aquilo que sente quando pego de surpresa. Assim esperam a solução do impasse de Bentinho em seguir a carreira eclesiástica, que conta com a ajuda não muito eficiente do próprio José Dias. Bentinho vai para o seminário, faz amizade com Escobar. Fora isso, Bentinho é a insegurança em pessoa e já demonstra os ciúmes que, na vida adulta culminarão na acusação de traição de Capitu com seu melhor amigo. Dom Casmurro tem momentos mágicos de lirismo, quando retrata as descobertas do primeiro amor, os sentimentos que invadem o jovem Bentinho, as suas incertezas e a interação com Capitu, que parece sempre estar a um passo à frente dele. O romance também mostra com a argúcia e a ironia já conhecidas do Bruxo do Cosme Velho o ser humano e suas contradições, sem julgamento, pois estes defeitos todos nós possuímos.
O que está em jogo, além do mistério da traição de Capitu, que se torna secundário diante do panorama da vida social no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, são os costumes e as relações humanas que se davam no íntimo das casas e das hierarquias sociais impostas a estes relacionamentos. Dom Casmurro é um romance agridoce, o humor que extrai de suas linhas e o estilo machadiano justificam a alcunha de clássico, nos deleitam, porém nos incomodam também, pois a melancolia e a amargura encerram as mesmas linhas de forma genial. Mas e Capitu? Traiu ou não traiu Bentinho? Ah, vão ler o livro e tirar suas próprias conclusões!!!

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