17 de fevereiro de 2015

Ron Mueck pelos olhos do celular



Nesta segunda-feira de carnaval resolvi ir com o meu marido e dois amigos à exposição de Ron Mueck, aquela do artista plástico australiano que trazia esculturas hiper-realistas, e que é um sucesso em São Paulo. Já tinha me preparado psicologicamente para enfrentar as filas que duravam duas horas ou mais. Mesmo assim, graças à ótima companhia, este foi o menor dos problemas. Ao entrar no espaço da Pinacoteca, tivemos as orientações necessárias para apreciar as obras e saber das regras que todo visitante deveria seguir (respeitar a marca no chão que permite a distância entre o público e a obra, não tirar fotos com flash etc.).
O que mais me chamou atenção, além das obras, claro, foi o comportamento das pessoas ali presentes que muito me levavam a questionar se realmente estavam ali para apreciar as esculturas de Ron Mueck ou apenas tirar fotos e selfies (de preferência com as esculturas ao fundo). Uma profusão de celulares com suas câmeras ligadas, mãos se erguendo para pegar o melhor ângulo da escultura e, claro, um autorretrato para mostrar que a pessoa esteve ali e, consequentemente, postar esta imagem nas redes sociais. Ouvia os monitores chamando a atenção das pessoas que insistiam em ultrapassar os limites no chão ou vira e mexe a obra era iluminada pelo flash de um celular alheio, acrescentando uma luz que não era a planejada para ela, isso quando não tinha gente que queria tocar nas obras. Não vejo problemas em tirar fotos, são registros de um passeio agradável, de um contato inédito com uma obra de arte. Até mesmo eu o fiz, as duas fotos que ilustram esta postagem são das obras que eu achei mais interessante.
O problema é esta ânsia em registrar por registrar, falar, comentar, uma atitude irritante num local que exige um comportamento mais discreto e contemplativo, uma atitude que atrapalhava até mesmo quem desejava observar um pouco mais os detalhes de obras que já são repletas deles, pois tinha gente que não saía da frente delas para continuar a fotografar e a se fotografar. A popularização destas exposições é um ótimo indício de que existe, sim, mesmo que secundário ou para vias de ostentação facebookiana, um interesse pela arte em geral. O contato de olhos não habituados a este tipo de manifestação artística, mesmo que atabalhoadamente ou terceirizado pela lente do smartphone, pode ser uma iniciação ou um apuro do gosto estético ou o despertar do interesse por outras exposições que possam acontecer. Porém novos hábitos devem acompanhar este evoluir visual, porque o afã de tirar a foto, não substitui em nada o prazer ou o estranhamento (e Ron Mueck trabalha mais com o incômodo das situações que representa do que apenas o realismo de suas formas) do contato com uma obra de arte que propõe um diálogo silencioso com quem vê, comunicação que sofre interferências quando tem um aparelho telefônico como intermediador daquilo que seus próprios olhos podem fazer e com maior precisão e sensibilidade.


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