21 de março de 2015

Muriçoca


E a muriçoca complica, complica, complica o meu fim de semana. E a muriçoca soca, soca, soca os meus ouvidos com sua melodia repetitiva e vazia. E o sábado e domingo que seriam um verdadeiro descanso tornam-se um completo festival de canções obrigatórias. Obrigatórias não no sentido daquelas que você deve ouvir antes de morrer, mas aquelas em que você prefere morrer a ouvi-las. Aonde a obrigatoriedade vem do volume altíssimo n’algum lugar das redondezas. Não julgo (pouco, confesso) a preferência musical alheia, no entanto é um absurdo as pessoas se acharem no direito de forçar os outros a ouvirem o que elas querem num volume estrondoso, abusivo, invasivo. E as horas são preenchidas com ruídos de banda Luxúria, com a pornografia em forma de funk e cantada por vozes curiosamente infantis, pelo desafinar homérico madrugada adentro do cantor brega de um bar próximo.
Imagino como meus vizinhos e moradores dos arredores reagiriam se eu resolvesse escutar num amplificador de mais de mil mega-hertz de potência as minhas cantoras antigas ou as outras músicas enfadonhas ou alternativas que ouço. As pessoas não são obrigadas e nem eu. Perdeu-se há muito tempo o respeito com o próximo. Foi-se à lama a noção da existência de um terceiro e dos limites que uma vida em comunidade impõe.
Enquanto este sentimento pelo coletivo não retorna, a muriçoca continua zunindo. E não é aquele inseto e muito menos música para os ouvidos.

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