31 de março de 2015

Na Estante 36: Contos Negreiros (Marcelino Freire)


Livro: Contos negreiros
Autor: Marcelino Freire
Editora: Record
Ano: 2005
Páginas: 110


A literatura sempre deu espaço aos marginalizados, concedendo voz a quem pouquíssimas vezes é escutado, fazendo ser visto aquele que passa muitas vezes invisível pela sociedade. Marcelino Freire tratou, assim como Luiz Ruffato, de fazer dos marginais matéria-prima para sua obra. Marcelino Freire é um daqueles autores que sempre ouvi falar, mas nunca tinha lido nada produzido por ele. Contos Negreiros, desde modo, serve como uma grande introdução à sua obra. São contos curtos, em sua maioria em primeira pessoa, diversas estórias que o autor denominou “Cantos”, retratando o negro, a mulher, o pobre, o nordestino, o favelado, o trabalhador, a puta, o homossexual (todos encerrados num mesmo microcosmo, compartilhando a mesma realidade), resgatando com a sua prosa o falar cotidiano, sublimando até mesmo a pontuação em algumas situações e revelando o universo cíclico, como no conto “Linha do Tiro”, da violência, do preconceito, do tráfico, das pequenas e grandes contravenções, das agressões verbais e silentes, da influência da mídia e dos ídolos que ela impõe (como a Xuxa no conto “Nossa Rainha”) e de uma triste falta de perspectiva (“O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem.” – Canto XI: Totonha). Publicado em 2005, Contos Negreiros demonstra atualidade e relevância, ainda mais nos tempos de hoje em que a sociedade brasileira caminha para uma polarização ainda maior de pobres e ricos e, ao que parece, irreversível. Tempos de disseminação de ódio racial, regional, homofobia e preconceito que tem se tornado mais presente com a popularização das redes sociais que revela o incômodo da ascensão de uma classe social e a exposição das ideias mais absurdas mas que apenas denotam o quanto precisamos ainda evoluir como grupo e nação. Pois tudo que o livro retrata e o que vemos no nosso dia a dia revela que o nosso problema é histórico, de 1500 para cá, e cultural. Ainda somos colonizados, mas pensamos como colonizadores e não percebemos a nossa triste condição.

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