7 de junho de 2015

Dos problemas da escrita e da leitura


   Muito se culpa a Internet de contribuir para os problemas do povo brasileiro com a escrita, leitura e interpretação de texto. Na verdade, ela apenas evidencia uma situação que já existia anterior à era digital. Apenas tornou visível esta dificuldade nacional que as postagens mal escritas e equivocadas explicitam. Se brasileiro escreve mal é por falta da prática constante, se não obedece às regras de concordância nominal e verbal e à ortografia é porque ele também não ou pouquíssimo lê (não possui a referência visual da língua escrita). Não somos uma pátria educadora, como deseja a presidenta, nem sequer um país de leitores e esta realidade acontece por diversos fatores além da falta de interesse tupiniquim em pegar um livro e ater-se em sua leitura.  Na verdade, todos lemos de alguma forma, desde placas de rua às publicações dos amigos no Facebook, estamos imersos numa sociedade que valoriza o escrito e prima o visual, é impossível não se fazer uma decodificação simples destas informações. 
Tudo começa no âmbito escolar e, antes disso, no seio familiar.  Se a leitura e a escrita não são incentivados nestes ambientes, dificilmente teremos um leitor. Mas nem tudo é garantia de que esse contexto gere também uma pessoa que descubra e mantenha o hábito da leitura. Num mundo com tantas ofertas de distração é fácil deixar o livro ou outro suporte em segundo plano. Como já disse e escreveu a minha professora da graduação Ana Maria Haddad, não exatamente com essas palavras, temos que deixar de lado essa ideia romântica do "prazer" pela leitura, pois diante de um texto mais complexo e profundo e de uma linguagem não facilitada, aquilo vai trazer diversas sensações, menos o prazer imediato.
Se você busca apenas o prazer ao ler um texto (literário ou não), vai se frustrar com autores que exigirão um pouco mais do que essa "boa vontade" que só contribui para a padronização de sua leitura feita dos mesmos autores, gêneros etc. Os livros mais desafiantes são aqueles que geram principalmente desconforto, seja linguístico, temático, ideológico, que colocam o leitor em desconcerto consigo e com o mundo. Cujo estilo exigirá uma releitura e permitirá uma diferente apreensão, novo significado.  Ler é um "tour de force", por vezes cansativo, mas que te traz um sentimento ímpar de descobertas, ler é o exercício da expressão popular "água mole em pedra dura...". Então abandonando o livro, pela falta de hábito, pela noção equivocada de leitura, pela atração exercida por outras mídias, a pessoa vai perder cada vez mais o contato com o universo da língua escrita, tão exigida e cobrada pela sociedade.  Consequentemente essa pessoa vai reproduzir clichês, argumentos mal fundamentados, preconceitos de outrem, tudo naquele estilo (ou falta de...) onde não é prioridade o cumprimento de determinadas regras ortográficas que irão assustar os mais puristas seja pelo desleixo com suas orientações/prescrições ou pelo vazio de suas ideias. E aí voltamos ao que hoje pululam nas redes sociais e na Internet.  O problema da leitura é um círculo vicioso difícil de ser interrompido pois esta categoria de ignorância é conveniente para muitos inclusive.

Um comentário:

  1. Estimado Wesley!

    A língua escrita está na iminência da quimera...com tal pressa o andor levará o leitor ao mundo do indecifrável, uma vez que, não mais interpretará e nem mergulhará na profundidade de um bom texto; deste modo, será mais fácil recuperar um dependente químico do que desintoxicar o mau leitor dos vícios que se enraízam em suas superficiais interpretações de realidade.

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