26 de julho de 2015

Na Estante 42: Dois Irmãos (Milton Hatoum)


Livro: Dois irmãos
Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2007
Páginas: 266 páginas


Omar e Yaqub já entraram para a lista de personagens marcantes da literatura brasileira, assim como o segundo romance de Milton Hatoum já vigora entre os melhores trabalhos já publicados nas duas últimas décadas. O impacto de Dois Irmãos no meio literário serviu, antes, para reafirmar o talento de Hatoum (que vinha de uma estreia celebrada com Relato de Um Certo Oriente) e acrescentar o olhar sobre um lugar pouco retratado nas letras brasileiras que é a região amazônica. Hatoum retoma o contexto da imigração libanesa para contar a estória de ódio entre dois irmãos gêmeos e o esfacelamento da família deles por conta deste conflito.
Yaqub é um sujeito quieto, reservado, que retorna do Líbano após passar alguns anos a pedido da mãe, para evitar brigas com o irmão com quem disputava a atenção amorosa de uma vizinha. Omar, o Caçula, alcunha recebida por ter sido o último a nascer, teve problemas de saúde após o parto e, por este motivo, é superprotegido pela mãe Zana, que passa a mão em sua cabeça e nutre um amor  obsessivo por ele (ao ponto de interferir em suas escolhas amorosas, enxergando-as como ameaças), adulando-o e encobrindo as confusões em que ele se mete. Beberrão, namorador, boêmio, Omar é o oposto de Yaqub que foca nos estudos e almeja o sucesso como que para provar a si mesmo e ao mundo (sua família, na verdade) que superaria o estereótipo de imigrante e, claro, o perfil infantil e dependente do irmão. Ainda temos o pai, Halim, que vê-se posto de lado na preferência da esposa quando as atenções dela sempre se voltam para o filho preferido.
O ocaso da família é vista sob o ponto de vista de Nael, o filho da empregada (e confidente de Halim) que ao mesmo tempo em que é testemunha de todos os conflitos que chacoalham a rotina da casa (ou na verdade mantém esta rotina turbulenta) tenta encontrar em um dos gêmeos a figura do pai, é a busca de um passado e a procura por uma ligação, mesmo que frouxa, de um laço familiar maior do que a mãe permitia (através do silêncio a respeito de quem seria responsável pela sua paternidade). Sabemos o incômodo dele ser o filho da empregada, agregada à família quando jovem, e que como tal também é tratado. 
A curiosidade por Dois Irmãos se dá também na maneira como o escritor explora a paisagem amazonense e as transformações que ela vem passando ao longo do tempo (do pós guerra à ditadura militar), influindo no comércio e nas relações dos moradores que ali vivem. O livro tem este aspecto úmido, aquoso, que o próprio local onde se passa a narrativa possui, sem resvalar no simples exotismo. A linguagem também explora com sutilezas a relação entre os familiares que exala sensualidade e sexualidade, assemelhando-se, deste modo, com a obra-prima de Lucio Cardoso, Crônica da Casa Assassinada, opondo-se a este apenas em sua concisão e na abordagem pouco passional, esta passionalidade incestuosa fica subentendida, apesar da tragédia circundar ambas as tramas em proporções diferentes. A melancolia e a tristeza e o clima decadente dão o tom da narrativa e transformam este Dois Irmãos em uma obra melancólica e, por isto mesmo, belíssima.

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