29 de setembro de 2015

Tristeza não tem fim...


Esta fixação humana pela felicidade plena. Numa existência a qual somos conscientes de que será finita, não há espaço para essa tal felicidade. Muitos podem argumentar que, como todos terão um fim comum, mais um motivo para perseguir esse intento emocional. Todos querem ser felizes. Por esse motivo, a grande maioria se frustra rapidamente cada vez que a vida e seus desígnios colocam cada vez mais pedras no caminho. Rochosas, pontiagudas, para extrair a dor necessária do aprender viver.
Vimos surgir nestas últimas décadas uma geração propensa a frustração, egoísta, que não sabe escutar uma negativa ou não entendem o que é convivência, que supre seus desenganos com ostentação material, fazendo das redes sociais uma plataforma de sua vida perfeita, divertida, feliz. Nosso grande poeta Vinícius de Moraes já alertara: “Tristeza não tem fim, felicidade, sim”. Estar acostumados à dor, ao tédio, ao não, à tristeza, nos torna mais fortes e maleáveis quando estas situações tão comuns, tão ordinárias quanto o sorriso que irrompe natural em nosso rosto ou o choro que brota sem que consigamos represá-lo, acontecem. Já sabemos lidar com elas. Criamos um jogo de cintura, nos tornamos íntimos daquilo que nos aflige ou incomoda. E assim aprendemos a valorizar os momentos de alegria tão ínfimos, concedidos a conta-gotas por alguém além de nós. Se tornar-se feliz vira uma obsessão, a religião e outros vícios estão aí para suprir e, artificialmente, compensar aquilo que não temos.
Saúdo a tristeza por sabê-la inerente ao que chamamos de vida. Saúdo a melancolia, pois a existência é contraditória, basta olhar ao nosso redor. Celebro a solidão, pois somos um ponto em meio a um universo muito maior, insignificantes perante tanta grandeza. Viraremos pó, adubo, cinzas e, ninguém perguntará por nós no final.

21 de setembro de 2015

Na Estante 44: O Pintassilgo (Donna Tartt)


Livro: O pintassilgo
Autor: Donna Tart
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Páginas: 728


Receio que este post seja mais um texto sobre o processo de leitura de O Pintassilgo do que o próprio livro exatamente. Tinha começado a ler este romance de Donna Tartt em fevereiro deste ano, primeiras páginas logo abandonadas por outras leituras que priorizaram-se no momento. Depois foi retomado de uma maneira esporádica, quase letárgica. A narrativa, apesar de algumas passagens interessantes, não fluía. Não conseguia entender toda a celebração da crítica especializada em torno desta obra vencedora do Prêmio Pulitzer. Tudo bem, insisti mais um pouco, novamente certo tédio, certa empolgação, até que, enfim, terminei-o.
A expectativa não foi superada, infelizmente, mas percebi que teria que enxergá-lo com outros olhos, pois o livro foge ao estilo de obra literária a qual estou acostumado a ler. Uma trama focada muito no enredo, apesar de momentos bem descritos, não é muito o meu forte. Mas O Pintassilgo não é um livro ruim, apesar dos contras. Donna Tartt é habilidosa ao entrar no imaginário de um garoto adolescente e retratar todo o contexto das obras de arte e restaurações, o submundo por trás disto, e retomar um assunto espinhoso, para o público americano especialmente, como o terrorismo (que dá o pontapé inicial à trama contada por Tartt).
Theodore Decker é um adolescente de 13 anos que perde a mãe num ataque terrorista a um museu em Nova York e que acaba levando para casa, a pedido de um senhor, também vítima da explosão (Theo estava presente no museu quando o ataque ocorreu), uma obra rara do pintor do século XVII Carel Fabritius que dá nome ao livro. O garoto acaba sob a tutela provisória da família Harbour (pois ele e sua mãe foram abandonados pelo pai há alguns anos), de quem Theo é colega de escola de um dos filhos, Andy. Escrever mais seria entregar a trama e estragar o prazer de algumas reviravoltas ou novos personagens.
Começo dizendo que O Pintassilgo poderia ter menos páginas e esta afirmação não denota preguiça em ler, mas aquilo que o romance tem de excesso, muitas descrições e cenas desnecessárias que não agregam tanto à estória. É um romance tradicional no sentido do que e do como conta e psicológico quando invade a mente de Theo, que também é o narrador, cujo mérito é fazer uma interessante reflexão sobre o universo da arte: o quanto as obras artísticas (não só as pinturas) nos atingem de certa forma, como a visão de uma obra que consideramos perfeitas pode influenciar para sempre e inevitavelmente nosso olhar, acabam tornando-se uma referência involuntária e uma procura, nas outras criações que surgirem, daquilo que nos surpreendeu numa obra-prima.
Pena que o livro não tenha o mesmo impacto de uma obra de arte literária marcante como tão bem a escritora definiu em suas páginas finais.

15 de setembro de 2015

Antissocial


Foges ao convívio humano como o diabo da cruz, refutas companhia, repeles quaisquer conversas, olhares, papos profundos ou rasos. Queres apenas o silêncio, o estar em si mesmo, ensimesmado, imerso nas páginas do livro álibi ou em suas próprias preocupações. Antissocial que és, não aprendes o que é troca, contato, socialização, civilização. Recluso ermitão no vagão do trem, anulando-se a todos, invisibilizado por vontade própria e esse esquecimento, o qual todos  temem, traz-lhe uma pacata satisfação.

7 de setembro de 2015

Na Estante 43: Seminário dos Ratos (Lygia Fagundes Telles)


Livro: Seminário dos ratos
Autor: Lygia Fagundes Telles
Editora: Rocco
Ano: 1998
Páginas: 166


O século XX presenteou os aficionados pela literatura brasileira com uma safra de grandes escritoras. Começando por Raquel de Queiróz, passando por Clarice Lispector, Hilda Hilst, entre outras. Lygia Fagundes Telles também integra esta seleta lista. A sensibilidade de sua prosa e o retrato da figura feminina, em época de transformações, nos seus escritos encantam o leitor que se debruça sobre sua obra e é tragado por ela. “Seminário dos Ratos” é um livro de contos publicado originalmente em 1977 e as personagens mulheres ditam os rumos da maioria das curtas narrativas tecidas pela autora de clássicos como “As Meninas”. Contos que brincam com o fantástico e o cotidiano, as relações afetivas e familiares, o intimismo e o social.
Destaque para “Senhor Diretor”, onde a protagonista, uma professora aposentada chamada Maria Emília, vive num estado de contínua perplexidade frente às mudanças dos costumes num período em que a revolução sexual já abalava as estruturas patriarcais e a mulher assumia, pouco a pouco, um novo papel na sociedade. Conto divertido e melancólico ao mesmo tempo, numa crítica sutil ao puritanismo vigente que não compreendia a liberdade da mulher em relação ao sexo. Também sutil é a bela estória contada em “Herbarium”, onde uma adolescente nutre uma paixonite pelo primo doente que é botânico e está passando uma temporada na casa dela e a manda todos os dias ir à caça de folhas para compor o seu álbum com diversas espécimes de vegetais. Toda ação acaba sendo uma reflexão sobre o desabrochar da maturidade, a perda e a própria morte. O conto que dá título ao livro retrata a situação absurda de uma invasão de ratos e a tentativa frustrada de uma negociação de paz com os roedores. Com “Seminário dos Ratos” certamente o leitor vai sentir um incômodo e um estranhamento diante do conteúdo das estórias e nisso resulta a beleza e a delícia de ler esta obra.