24 de outubro de 2015

Na Estante 46: O Irmão Alemão (Chico Buarque)


Livro: O irmão alemão
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Páginas: 240


         Há uma tendência na literatura brasileira atual da escrita de romances com forte carga autobiográfica, também chamada de autoficção. “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, e “Divórcio”, de Ricardo Lísias, são exemplos deste tipo de texto onde fatos da biografia do escritor se entrelaçam à ficção. Chico Buarque, cantor, compositor e escritor consagrado, também recorreu à autobiografia para engendrar sua mais nova obra chamada “O Irmão Alemão”. Da realidade, Chico retira a história do filho que o pai Sérgio Buarque de Holanda teve com uma alemã, durante a sua estadia em Berlim nos anos 30. No romance, o narrador Francisco de Hollander encontra uma carta escrita em alemão endereçada ao seu pai, Sérgio de Hollander, até que, por intermédio de um conhecido do amigo Thelonious (com quem também cometia pequenos delitos ou arruaças), descobre que a informação de que Sérgio teve um romance com uma mulher chamada Anne Ernst e a engravidara. A figura deste irmão em Berlim persegue o narrador de forma obsessiva, que vai juntando aos poucos as peças deste enigma, e o faz querer obter maior conhecimento do paradeiro dele, ao mesmo tempo que usa a imaginação para adivinhar como poderia ter sido a trajetória deste irmão desconhecido.
       “O Irmão Alemão” é ambientado no período negro da ditadura militar e o romance é hábil em retratar este momento como um perigo sempre a espreitar as personagens, prestes a roubar-lhes ou cercear-lhes a liberdade. Chico não pretendeu com sua obra disfarçar as referências à própria história, o sobrenome Hollander é um exemplo. Pelo menos no livro ele não é um ascendente compositor e cantor dos tempos dos festivais e, sim, um professor universitário.
         O livro acaba por ser uma homenagem ao próprio pai do autor, retratado como alguém fascinado pelo universo dos livros e da literatura, que possui uma casa entupida de exemplares raros e manteve contato direto com os maiores nomes da literatura não somente brasileira como mundial. As menções à rica biblioteca e ao comportamento recluso e distante de Sérgio acabam rendendo as melhores passagens do livro. O irmão do narrador, as aventuras amorosas e o quanto de inveja o narrador tinha da rotina diária de mulheres que frequentavam o quarto dele, também valem um elogio. Francisco ficava à sombra deste irmão mais velho, contentando-se até em travar relacionamento com estas mulheres que já tinham passado pelos braços do outro. 
         Se há algo a reprovar em “O Irmão Alemão” é o final abrupto demais, que não dá tempo do leitor despedir-se das personagens ou até de sentir maior simpatia pela busca do narrador, mesmo que a curiosidade de saber o que é verdadeiro ou não na matéria narrada o prenda até a última página. Mas este romance, primeiro que leio de Chico Buarque, pretendo conhecer os outros em breve, demonstra a habilidade do cantor de “A Banda”, “Meu Guri” e tantos outros clássicos da MPB com a literatura, universo onde o domínio com as palavras é primordial e que inquestionavelmente Chico Buarque possui de sobra.

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