4 de novembro de 2015

Na Estante 47: O Filho Eterno (Cristovão Tezza)


      Livro: O filho eterno
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Record
Ano: 2007
Páginas: 222

            A vida imita a arte ou a arte imita a vida. Se pensarmos no panorama atual da literatura brasileira, a segunda afirmação é a mais válida. Para alguns escritores ela dá insumos e serve de mote para a redação de novos romances. Com “O Filho Eterno”, Cristovão Tezza consagrou-se definitivamente entre os grandes autores contemporâneos e vale-se de um fato marcante em sua própria biografia para tecer sua obra mais famosa: a relação entre pai e filho, mais precisamente, um pai em busca de firmar-se como escritor e um filho com Síndrome de Down.
            O romance publicado em 2007 tem todos os elementos necessários para cair na pieguice e no melodrama, porém destaca-se por uma narrativa em terceira pessoa sóbria e distanciada e por um texto permeado por uma quase cruel sinceridade. O protagonista sem nome é um escritor iniciante que tenta lidar com o fato de o primogênito ter Síndrome de Down. A narrativa baseia-se em todo o conflito interno desse artista em lidar com a situação, a vergonha de falar publicamente a respeito do assunto, o preconceito que inevitavelmente o contagia até mesmo um desejo pela morte do garoto, quando recém-nascido, rondam os pensamentos do personagem. Paralelamente o narrador relembra outros momentos marcantes da juventude desse escritor, suas andanças, estudos, textos imaturos, participação em grupos de teatro e subempregos na Europa.
            O livro mostra um pai, um filho e um artista em formação, amadurecendo ou recusando-se a crescer diante dos problemas que vão surgindo e da presença de um filho que não pode ser ignorado e que de qualquer maneira reclama atenção e assistência. Apesar da frieza e do olhar clínico com o qual se relaciona com o filho, é impossível não identificar-se com esse escritor preocupado em aperfeiçoar-se e que recebe diversos nãos das editoras. Além do enfoque familiar, há principalmente um direcionamento sobre o fazer artístico ou as dificuldades que tal escolha traz consigo e o quanto a experiência pessoal contribui para o amadurecimento profissional e literário.
            Adquiri este livro na época em que “O Filho Eterno” estava ganhando todos os prêmios e a primeira leitura não me atraiu ou convenceu completamente, chegava até a questionar tamanha celebração em torno de uma obra apenas “ok”. A releitura serviu então para acabar com qualquer equivocada primeira impressão e evidenciar o brilhantismo da prosa de Cristovão Tezza e também deve ter falado ao coração e à razão de tantos outros escritores neófitos que, assim como o protagonista, estão em busca de estabelecerem-se no concorrido e difícil universo literário nacional, apesar das negativas e dos percalços pessoais.

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