15 de novembro de 2015

Na Estante 48: Urânios (Roberto Muniz Dias)


Livro: Urânios
Autor: Roberto Muniz Dias
Editora: Metanoia
Ano: 2014
Páginas: 118

O escritor do “Na Estante” de hoje é Roberto Muniz Dias. Desconhecia sua obra, composta por romances, contos e textos teatrais, e foi por intermédio de meu amigo Eduardo Eulálio que acabei tendo contato com um de seus trabalhos. Comecei então por “Urânios”, um romance cujo destaque não é somente colocar uma relação homoafetiva numa estrutura não convencional, estamos falando de um relacionamento a três, como também a carga altamente existencial da prosa de Roberto Muniz Dias e a facilidade com que o autor explora a temporalidade no enredo.
O romance alterna capítulos de mesmo nome ao longo da narrativa. “O galo colorido” mostra o narrador-protagonista às voltas com a pintura de um galo feita por ele mesmo e as lembranças que ele suscita de seu envolvimento com um casal e a tentativa fracassada de morarem juntos e manterem uma vida conjugal a três. Quando o leitor se depara com o capítulo “Átomos: íons, prótons e elétrons”, tem-se em evidência o protagonista e os “seus maridos”, a convivência embaixo do mesmo teto, a dificuldade em lidar com esta realidade e com a rotina na nova casa, a atenção dividida e exigida pelos parceiros. Em “As camas” é mostrada como se dava a dinâmica sexual entre as três personagens. 
O conflito interno, pelo qual o protagonista passa, revela os medos e os preconceitos da sociedade que já discrimina o homossexual e ainda mais quem encontra uma nova forma de amar, além do incômodo do personagem principal em ser visto apenas como um “terceiro elemento” dentro do âmbito do casal com quem se envolve, como um objeto exótico ou um mero brinquedo sexual. O livro divide-se nestas dúvidas, o que sublima a curiosidade pelo erótico apenas, deixada num segundo plano, para dar vazão à torrente de pensamentos e questionamentos que o protagonista se faz o tempo todo numa contínua avaliação de si mesmo e da situação a qual aceitou se incluir.
O romance “Urânios” traz essa qualidade por não pretender apenas em ser um panfleto LGBT (principal preocupação e projeto do autor piauiense), mas pela capacidade de ampliar o universo homossexual numa forma literária estilisticamente muito particular e rica. 

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