29 de novembro de 2015

Na Estante 49: Desonra (J. M. Coetzee)


Livro: Desonra
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2010
Páginas: 246

A aceitação da desgraça como condição inevitável do ser humano. O romance “Desonra”, do sul-africano J. M. Coetzee, trata com precisão esta temática ao mostrar o ocaso de David Lurie, professor universitário, acusado de assédio sexual por uma de suas alunas com quem teve um breve relacionamento amoroso e que não se esforça para defender-se, aceitando todas as acusações que lhe foram feitas. Depois David vai passar uma temporada com a filha Lucy que é lésbica e possui uma pequena propriedade rural. Até que um episódio atinge pai e filha evidenciando a violência e a tensão racial latente numa região aparentemente plácida: um grupo de três homens negros invade e rouba a casa, eles agridem e ateiam fogo em David e estupram Lucy. Assim como o pai conformara-se no início do livro com o problema de assédio na universidade, a filha também recusa-se a contar para a polícia tudo o que realmente  aconteceu dentro de sua casa, fechando-se num silêncio agonizante e aumentando a distância entre os dois.
A concisão é uma das melhores qualidades dos textos escritos por Coetzee num estilo ao mesmo tempo seco e objetivo, o que não significa exatamente que o romance seja desprovido de emoção e que não haja uma empatia entre leitor e as personagens. “Desonra” evidencia uma África do Sul pós-apartheid, ainda impregnada pela violência e a hostilidade, explícita ou velada entre negros e brancos. David e Lucy, brancos, são agora corpos estranhos numa região com regras próprias e David encontra no trabalho em uma clínica, onde cuida e sacrifica cachorros abandonados, e na elaboração de uma ópera sobre Lord Byron uma maneira de superar os últimos acontecimentos. 
Para os especialistas, “Desonra” é considerada a obra-prima de J. M. Coetzee (um escritor que estou conhecendo e admirando aos poucos – outros dois livros dele, Infância e Juventude, já foram comentados aqui nesta coluna), ganhou diversos prêmios literários após seu lançamento (incluindo o Man Booker Prize) além de ter certamente propiciado, anos depois, em 2003, o Prêmio Nobel de Literatura a este romancista que reúne todas as qualidades de um clássico, cuja obra torna-se relevante num mundo de grandes tensões como o que vivemos. 

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