8 de novembro de 2015

Pessoal!


Os olhos estavam no livro, acabara de abri-lo. A primeira distração veio com um marreteiro anunciando a venda de um delicioso chocolate por apenas dois reais. Como o silêncio no trem revelou o desprezo ou o desinteresse por semelhante oferta, alardeada e repetida com poucos segundos de espaço, o vendedor não desistiu de seu produto e decidiu abaixar o preço para angariar alguma freguesia naquele momento em que o vagão partia rumo à outra estação. “Dois chocolates por dois reais, pessoal, cinco por cinco reais, pessoal! Vamo lá, pessoal! É a última caixa, pessoal! Melhor vender mais barato, pessoal, do que perder pros guarda, pessoal!”. Perdeu as contas de quantos “pessoal” ouviu dentro da frase.
Quando alguém ergueu a mão em interesse pela oferta, o marreteiro distanciou-se. Pensou que poderia retomar a leitura, no entanto uma voz mais aguda de mulher oferecia por dois reais um salgadinho de milho delicioso, pessoal. O mesmo tom monocórdio, o mesmo vício linguístico ou cacoete. “Pessoal” a cada duas palavras ou menos. Ninguém desejou comer o bendito salgadinho, talvez porque ela também não reduzira o valor do produto, pessoal.
Mal ele pode voltar novamente a sua atenção para a continuação do romance graciliano porque elevou-se, após o embarque e desembarque da estação seguinte, uma voz lamuriosa, trêmula, cheia de pesar, numa entonação tão pouco comovente (ou foram os ouvidos dos passageiros, e o dele, que já estavam acostumados aquele lamento, imunes a qualquer sentimento de piedade ou dó que não as faziam se obrigar a procurar as moedas escondidas no bolso, na bolsa ou na carteira). Ainda escutava um “pessoal” na humilhante súplica do pedinte, o que ainda sequer comovia os passageiros que se refugiavam na tela touch dos seus respectivos smartphones.
O pedinte arrastava-se vagarosamente, assim como seu humilde falar, até que voltaram, atrapalhando-o, o marreteiro do chocolate e a moça do salgadinho de milho, o preço era o mesmo, o vozerio maior, cheio de “pessoal” entre cada um dos termos das orações simples, coordenadas, subordinadas, entrecruzadas que reproduziam na repetitiva propaganda dos alimentos ou da própria miséria que ofertavam. Acresceu à cacofonia mais um vendedor de fones de ouvido de celular Samsung a dez ou cinco reais.
A estação dele chegara, não atingira a meta de finalizar aquele capítulo antes do desembarque em seu destino, confessa a si mesmo que fuçou o celular neste meio tempo, pessoal. Não soube se mais uma venda fora efetuada, pessoal, se o chocolate baixou para um real, se a mercadoria do marreteiro foi levada pelo rapa, se a moça estourou o tímpano de mais um passageiro, se o senhor pedinte amoleceu algum coração mais do que uma frase avulsa do Facebook ou do WhatsApp. Na verdade não se importava, tamanha a irritação. Mas a instabilidade daquelas vozes anunciadas num coro inusitado ainda ecoavam na cabeça, esquizofrenicamente, pessoal. 

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