27 de dezembro de 2015

Pancadão proibidão


     E a voz da criança canta indecências n’alguma aparelhagem de som de um carro perdido por aí. Em outros momentos, quem canta é mesmo um adulto, o sexo é o tema na batida do funk e o linguajar usado para falar sobre esse assunto é explícito, sem qualquer sutileza. O ritmo é repetitivo, a letra é repetitiva, a voz é desafinada e monocórdia em todas as canções, ou seja, repetitiva. E a mulher é objetificada, um mero apetrecho sexual dentro da composição. Na maioria das vezes, é denominada “novinha”. Não importa. O que interessa é o dizer, no ritmo sincopado e sintetizado pelas batidas, o que e como ela faz durante o ato sexual. Renato Russo já cantara: “Sexo verbal não faz meu estilo” e muitos podem concordar com ele. O sexo é tema de música e literatura desde sempre, os poemas mais antigos tinham que recorrer às metáforas variadas, criativas e sacanas para que o leitor entendesse as segundas intenções do eu-lírico. Até os funks mais antigos usavam palavras de duplo sentido para referirem-se ao que todo mundo sabia. “Aquilo...”, como dizia a célebre Dona Bela, imortalizada pela grande Zezé Macedo. Gregório de Matos também fez os seus poemas fesceninos (alguém lembra da Pica-Flor?), o poeta inglês John Donne usou uma pulga como trocadilho para também mencionar o sexo no sentido figurado. E porque agora escancarou-se o sexo nas letras do funk de tal forma que me parece uma descrição de um filme pornô? Incômodo meu? Certamente. Incomoda pois a polêmica canção é escutada a muitos decibéis, num volume que chega ao topo do Everest, exposto a quem quer e não quer ouvir, o problema começa aí (e os ouvintes são tanto crianças de 2 ou 3 anos quanto idosos). O conteúdo do funk não apresenta novidades a quem tem uma vida sexual ativa ou já a tenha visto em qualquer filminho barato erótico do Cine Privé. Quem escreve as canções ou não conhece um repertório anterior que tenha tratado a temática sexual de uma maneira mais artística e elaborada ou se conhece não faz questão de explorá-la desse modo. Agrada-lhe o óbvio mesmo e coloca este óbvio na boca de um menino que mal entrou na adolescência (se chegou a tal período) que canta as situações ou posições sexuais e tudo ganha um caráter estranho (pelo menos para quem vos escreve). A garotada, claro, se diverte a beça c0m o palavreado e os refrões exaustivos que se referem aos órgãos sexuais feminino e masculino. Confesso que ainda tento, com olhos despidos de preconceito (o que é difícil, confesso), entender esse fenômeno, acredito que não tenha chegado a nenhuma conclusão objetiva sobre este subgênero musical dentro do funk que há muito se estabeleceu na rotina musical de muitas pessoas e que insiste em bater à janela da minha residência. Em volume altíssimo...

21 de dezembro de 2015

Na Estante 51: O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupery)


Livro: O pequeno príncipe
Autor: Antoine de Saint Exupery
Editora: Agir
Ano: 2003
Páginas: 96

“O essencial é invisível para os olhos.”
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
“O Pequeno Príncipe” deixou uma série de frases marcantes, tornou-se o livro favorito de muitas pessoas, referência obrigatória nos concursos de misses e um clássico da literatura. Ao ler tardiamente esta obra de Antoine de Saint-Exupery, o que mais me chamou a atenção foi o teor altamente filosófico e melancólico da narrativa. Nas páginas de “O Pequeno Príncipe” circulam temas como a solidão, a mesquinhez, as relações humanas, o universo adulto, a morte, o amor, alguns destes com uma profundidade surpreendente.
A linguagem tem a aparente simplicidade dos livros voltados ao público infantil, porém é na antítese criança/adulto que a estória criada pelo piloto e escritor francês gira em torno. O quanto uma parte não compreende a outra, uma por inocência, outra por que perdeu seu vínculo com o que há de melhor na infância, deixando-se levar por coisas práticas que, por sua vez, não levam a nada. 
O habitante do pequeno planeta (ou o asteroide B 612) tem a curiosidade, o olhar questionador e a obstinação de quem não contenta-se com uma parca resposta. Talvez a identificação da maioria dos leitores advenha desta tenacidade infantil, do olhar despido de preconceitos e das descobertas que o personagem faz a respeito do universo que o circunda e um pouco dos valores (ou a falta deles) que regem o comportamento dos homens, fato que torna “O Pequeno Príncipe” um livro atemporal e universal, complexo como uma boa obra de ficção, cativante como toda ótima obra infantil.

18 de dezembro de 2015

Alguns questionamentos...


Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Eu sou homem. Portanto sou Deus?
Se o homem tem origem em Deus, de onde Ele surgiu? Quem o criou à imagem e semelhança de quem?
Somos constituídos do pó das estrelas. Especialistas dizem que originamos de moléculas oriundas de estrelas após o Big Bang. A vida é uma seleção natural de seres que evoluíram e adaptaram-se em condições mais adversas. Tudo está gravado no nosso DNA (algo mais técnico e científico do que a explicação esdrúxula acima).
Mas no que essas moléculas influenciaram no meu caminhar até aquela pessoa que um dia iria amar? E como me puseram no ventre de quem eu fui calhar de me desenvolver e depois nascer? No que os átomos influenciam no intermédio que a vítima fez entre quem atira e o espaço vazio atrás de si? Logo naquele dia, naquele momento? Ou até mesmo na sorte de achar uma nota de 100 reais no chão de uma calçada? Seriam as moléculas ou Deus? Seria eu uma simples junção de partículas ou personagem num romance a céu aberto qualquer, joguete nas mãos do destino? Sou aquilo em que acredito ou tudo está determinado por uma força mística superior? 
Quem sou? Algo que vai além daquele nome que consta na certidão de nascimento ou no RG? Pergunta que não cessa e que nenhuma resposta supre de certezas, são apenas provisórias hipóteses que sucedem-se uma a outra, incessantemente. 
Só sei que estou aqui, num ponto qualquer da história, procurando inserir-me em meio a ela. História tão difusa, confusa e obscura quanto alguns questionamentos que insistem em rondar, em sondar, em cravar-me de mais dúvidas...

13 de dezembro de 2015

Na Estante 50: Infância (Graciliano Ramos)


Livro: Infância
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Círculo do Livro
Ano: 1977
Páginas: 256

O período da infância é dito por especialistas como fundamental na formação psicológica, social e física de qualquer ser humano. A psicanálise encontra neste período diversas respostas para os problemas pessoais que os adultos passam. Não é de se surpreender que muitos autores tenham retornado para este tempo cercado de nostalgia para escrever suas obras. “Infância”, do clássico escritor de “Vidas Secas”, Graciliano Ramos, também é uma tentativa autobiográfica de transformar em ficção um período de sua vida. Claro que quem conhece a obra do velho Graça sabe bem que não será um retrato fácil e doce.
O narrador em 1ª pessoa, adulto, faz observações de quando era criança, refletindo na maturidade os fatos que o marcaram na infância, quando a percepção e o raciocínio ainda não estavam totalmente conscientes dos acontecimentos que o afligiram ou agradaram, num técnica parecida com a empregada por Raul Pompeia em “O Ateneu”. O passado revisto pelo presente e presentificado pela narrativa retratada no livro. Aqui temos o pequeno Graciliano passando por dificuldades com a seca, temendo a presença e as atitudes ríspidas do pai, o relacionamento com os irmãos e os raros amigos da rua, além dos vizinhos e outros parentes, as mudanças de casa, a frieza da mãe e, o que mais traumatizou o personagem (e que rende momentos inesquecíveis), a relação tempestuosa e cheia de atritos do garoto com a escola e as dificuldades em aprender a ler (onde as cartilhas com uma linguagem rebuscada e inacessível e a imagem incompreensível do Barão de Macaúbas povoaram de pesadelos e angústias o contato com as letras) e a descoberta da leitura.
O mais interessante neste romance de Graciliano Ramos é a capacidade de colocar-se na perspectiva de uma criança sempre, assumindo a imaturidade e o desconhecimento das coisas, porém não destituída de curiosidade e indagações que deixam os adultos sem explicações ou simplesmente irritadiços e violentos (violência que se reverte em chineladas, como o caso da mãe dele ao ser questionada sobre o significado da palavra inferno), além da simplicidade de suas observações que não deixam de abarcar profundidades. 
Trata-se de um romance peculiar que não perde a dureza e a secura das outras estórias tecidas pelo autor de “São Bernardo” e “Angústia”, mas cercado pela tênue ingenuidade do universo infantil que abranda uma realidade mais implacável como a que rondava o nordeste no início do século passado.

4 de dezembro de 2015

Num piscar de olhos


O tempo prossegue no relógio. Alternando velocidades, em altos e baixos de tédio e frenesi. Pisco o olho e não vejo tudo que ocorreu no breve intervalo onde todas as coisas no mundo inteiro aconteceram sem o meu testemunho. Fecho os olhos mais uma vez, um suspiro e um arrepio. Passam revoluções no ínfimo escuro que se faz no movimento mecânico ocular. Passa a música que tanto agradou-me, passam as preocupações que chegam ao mesmo tempo. O relógio dá os segundos, indiferente, a trajetória até o próximo minuto é tortuosa e não me impeço o cerrar dos olhos, desta vez mais prolongado, tentativa vã de relaxamento, um reflexo bate nas pálpebras e pestanas não consegue voltar para seguir em sua inalcançável velocidade, atravessa o escuro do olho que recusa a se abrir. Ondas de cansaço, como o mormaço do verão, sol de meio-dia, tudo está ao meio, por fazer, incompleto, a castigar o concreto dos objetivos que não resistem em surgir e paralisam-se numa longa fila indiana, burocrática como aquelas que dominam qualquer repartição. Pegue a senha e aguarde, outras prioridades gestantes e idosas passarão na sua frente e já estarão caducas e não compreenderão mais o motivo de estar ali. Os olhos piscam mais uma vez, repentino escuro, é noite? Quanto choro, morte, alegria irromperam quando o relógio deu mais uma hora, quando o sono toma-me, mas o momento não me permite sequer uma sesta bem vinda e quista. O olho pisca e a pálpebra treme, tique nervoso ou estresse acumulado? A luz chega esparsa, retraindo-se. É noite, enfim? Que venha, então! Ao menos o descanso estaria reservado, não fossem todos os pensamentos do mundo inteiro inventarem de fazer terreno, cravar estacas, estabelecer fundações profundas, cimentar tudo para evitar ou dificultar remoção. Pensamentos muçulmanos, europeus, americanos, brasileiros, kardecistas, judeus, umbandistas e cristãos. O artista veterano canta afinado, vibrando as notas, a canção agrada mesmo a letra ditando uma realidade diversa da que vive, gosta de se teletransportar, como se lesse a página solta de um livro que segue à outra, à outra, à outra e o cerrar dos olhos, não tão veloz quanto os piscos ancestrais, é mais tenaz. E o sono chega num piscar mais prolongado... E outras revoluções acontecem enquanto durmo e a impressão é de que tudo, mesmo assim, permanece igual.