13 de dezembro de 2015

Na Estante 50: Infância (Graciliano Ramos)


Livro: Infância
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Círculo do Livro
Ano: 1977
Páginas: 256

O período da infância é dito por especialistas como fundamental na formação psicológica, social e física de qualquer ser humano. A psicanálise encontra neste período diversas respostas para os problemas pessoais que os adultos passam. Não é de se surpreender que muitos autores tenham retornado para este tempo cercado de nostalgia para escrever suas obras. “Infância”, do clássico escritor de “Vidas Secas”, Graciliano Ramos, também é uma tentativa autobiográfica de transformar em ficção um período de sua vida. Claro que quem conhece a obra do velho Graça sabe bem que não será um retrato fácil e doce.
O narrador em 1ª pessoa, adulto, faz observações de quando era criança, refletindo na maturidade os fatos que o marcaram na infância, quando a percepção e o raciocínio ainda não estavam totalmente conscientes dos acontecimentos que o afligiram ou agradaram, num técnica parecida com a empregada por Raul Pompeia em “O Ateneu”. O passado revisto pelo presente e presentificado pela narrativa retratada no livro. Aqui temos o pequeno Graciliano passando por dificuldades com a seca, temendo a presença e as atitudes ríspidas do pai, o relacionamento com os irmãos e os raros amigos da rua, além dos vizinhos e outros parentes, as mudanças de casa, a frieza da mãe e, o que mais traumatizou o personagem (e que rende momentos inesquecíveis), a relação tempestuosa e cheia de atritos do garoto com a escola e as dificuldades em aprender a ler (onde as cartilhas com uma linguagem rebuscada e inacessível e a imagem incompreensível do Barão de Macaúbas povoaram de pesadelos e angústias o contato com as letras) e a descoberta da leitura.
O mais interessante neste romance de Graciliano Ramos é a capacidade de colocar-se na perspectiva de uma criança sempre, assumindo a imaturidade e o desconhecimento das coisas, porém não destituída de curiosidade e indagações que deixam os adultos sem explicações ou simplesmente irritadiços e violentos (violência que se reverte em chineladas, como o caso da mãe dele ao ser questionada sobre o significado da palavra inferno), além da simplicidade de suas observações que não deixam de abarcar profundidades. 
Trata-se de um romance peculiar que não perde a dureza e a secura das outras estórias tecidas pelo autor de “São Bernardo” e “Angústia”, mas cercado pela tênue ingenuidade do universo infantil que abranda uma realidade mais implacável como a que rondava o nordeste no início do século passado.

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