4 de dezembro de 2015

Num piscar de olhos


O tempo prossegue no relógio. Alternando velocidades, em altos e baixos de tédio e frenesi. Pisco o olho e não vejo tudo que ocorreu no breve intervalo onde todas as coisas no mundo inteiro aconteceram sem o meu testemunho. Fecho os olhos mais uma vez, um suspiro e um arrepio. Passam revoluções no ínfimo escuro que se faz no movimento mecânico ocular. Passa a música que tanto agradou-me, passam as preocupações que chegam ao mesmo tempo. O relógio dá os segundos, indiferente, a trajetória até o próximo minuto é tortuosa e não me impeço o cerrar dos olhos, desta vez mais prolongado, tentativa vã de relaxamento, um reflexo bate nas pálpebras e pestanas não consegue voltar para seguir em sua inalcançável velocidade, atravessa o escuro do olho que recusa a se abrir. Ondas de cansaço, como o mormaço do verão, sol de meio-dia, tudo está ao meio, por fazer, incompleto, a castigar o concreto dos objetivos que não resistem em surgir e paralisam-se numa longa fila indiana, burocrática como aquelas que dominam qualquer repartição. Pegue a senha e aguarde, outras prioridades gestantes e idosas passarão na sua frente e já estarão caducas e não compreenderão mais o motivo de estar ali. Os olhos piscam mais uma vez, repentino escuro, é noite? Quanto choro, morte, alegria irromperam quando o relógio deu mais uma hora, quando o sono toma-me, mas o momento não me permite sequer uma sesta bem vinda e quista. O olho pisca e a pálpebra treme, tique nervoso ou estresse acumulado? A luz chega esparsa, retraindo-se. É noite, enfim? Que venha, então! Ao menos o descanso estaria reservado, não fossem todos os pensamentos do mundo inteiro inventarem de fazer terreno, cravar estacas, estabelecer fundações profundas, cimentar tudo para evitar ou dificultar remoção. Pensamentos muçulmanos, europeus, americanos, brasileiros, kardecistas, judeus, umbandistas e cristãos. O artista veterano canta afinado, vibrando as notas, a canção agrada mesmo a letra ditando uma realidade diversa da que vive, gosta de se teletransportar, como se lesse a página solta de um livro que segue à outra, à outra, à outra e o cerrar dos olhos, não tão veloz quanto os piscos ancestrais, é mais tenaz. E o sono chega num piscar mais prolongado... E outras revoluções acontecem enquanto durmo e a impressão é de que tudo, mesmo assim, permanece igual.

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