27 de dezembro de 2016

O ano em que vivemos em perigo


Não há nada ruim que não possa piorar. Às vezes o senso comum traz algumas verdades irrefutáveis. Do modo como as coisas se encaminharam em 2016 é melhor que esperemos o apocalipse para o ano que vai nascer. E se sobrevivemos ao quase expirado 2016 temos razões de sobra para agradecer (a Deus, a Zeus, ao seu Orixá) o fato de termos chegado até aqui ou motivos suficientes para encarar o que está por vir com enorme receio? Que o diga a nossa frágil democracia, que o confirme (através de leis cada vez mais absurdas) a nossa Câmara e o nosso Senado, que o sancione o presidente sem nunca ter sido, o ilegítimo, aquele que você sabe quem, cuja alcunha começa com “Fora” e termina com “Temer”.
Há quem diga o clássico e clichê: “Agradeça que você está vivo até agora” ou venha com a estranha compensação: “você deveria estar feliz, pois tem casa, comida e roupa lavada enquanto tantas pessoas vivem na miséria!”. A afirmação certamente não me comove, não é motivo de conforto espiritual saber que tem gente em situação pior do que a minha, passando fome ou outras necessidades... Claro, não podemos ser ingratos a tudo que possuímos e conquistamos, mas paira uma nuvem densa, um senso de preservação disto que é nosso, muitas vezes daquilo que nos propicia um conforto mais interior do que material, quando ficamos diante de extremos como a crise dos refugiados, a guerra civil dificilmente velada e enfrentada nas grandes cidades, o sistema de apartação cada vez mais grave das minorias, a ascensão de políticos com ideias radicais e desumanas e a adesão de uma grande parte da população que leva tais líderes ao poder e proliferam tais chorumes por onde passam, nas conversas informais, nas redes sociais, no seio familiar. 
Vivemos em constante perigo em 2016, uma situação de instabilidade poucas vezes vista e, ao mesmo tempo, um sentimento horrível de impotência diante da imutabilidade das coisas ou da impossibilidade do frear o curso da história que, inevitavelmente, caminha para uma nova crise. E não há fenômeno natural para culpar desta vez, o maior problema da humanidade (e a sua única solução também) é apenas aquilo que a compõe essencialmente: o próprio homem.

19 de dezembro de 2016

Na Estante 67: Os Lusíadas (Luís de Camões)


Livro: Os Lusíadas
Autor: Luís de Camões
Editora: Abril
Ano: 2010
Páginas: 448

Ao fazermos a leitura de Os Lusíadas, clássico português de Luís Vaz de Camões, empreendemos uma jornada cheia de obstáculos tais quais os enfrentados por Vasco da Gama em sua viagem rumo às Índias no épico lusitano. Obstáculo do tempo: o poema data do século XVI, época das grandes navegações. Obstáculo da linguagem: por pertencer a um período antigo, os termos empregados por Camões em sua obra necessitam em boa parte do auxílio de um dicionário. Obstáculo das referências históricas e cultura clássica: as diversas alusões aos mitos greco-romanos e a personagens célebres da história pregressa de Portugal pode confundir o leitor menos íntimo a estas informações. Considerando todas estas implicações, o que torna Os Lusíadas uma obra imortal e relevante até hoje é o modo como Camões teceu seu trabalho monumental. Sabendo que a epopeia visa à expressão das conquistas de uma nação e tem na figura do herói aquele que carrega em si as qualidades e a coragem de um povo, fica evidente que Camões tinha um fato ainda muito recente na história portuguesa (a descoberta da rota para as Índias) e também um herói incipiente (Vasco da Gama) e, com tão pouco, teve que valer-se não somente de seu talento de poeta assim como de sua habilidade romanesca para entrelaçar história, mitologia e estilística num trabalho só.
A trama de Os Lusíadas divide-se em três planos: o da viagem em si, liderada por Vasco da Gama; o plano mitológico centralizado no antagonismo de Baco e na interseção de Vênus em favor dos portugueses; o plano histórico, onde os fatos mais importantes da nação de D. Sebastião são recuperados ao longo do poema. Os dois últimos planos muitas vezes gerando maior interesse que a própria viagem, uma vez liderada por Vasco da Gama, um herói que, comparado a Aquiles (de A Ilíada), Ulisses (de A Odisseia) e Enéas (da Eneida), apenas para ficarmos entre os grandes heróis épicos da cultura clássica, pouco age e é constantemente eclipsado por outros personagens da epopeia camoniana.
Mas o protagonista real de Os Lusíadas é justamente a linguagem empregada por Camões, a maneira como o escritor português transformou todos esses elementos em poesia. Longe de querer fazer uma análise formal (já é de conhecimento de boa parte que o poema se estrutura em oitavas com versos decassílabos), o destaque é a carga dramática das situações retratadas, o lirismo e a inventividade dos versos repletos de hipérbatos. Passagens como a morte de Inês de Castro, do Gigante Adamastor, da Ilha dos Amores são sempre lembradas, porém é na fala do Velho do Restelo que Camões deixa entrever que a sua homenagem aos portugueses e as grandes conquistas de sua nação não está isenta de críticas, julgando a cobiça e ambição que levaram a tais empreendimentos. Sinal de coragem de Luís Vaz de Camões em não fazer de Os Lusíadas, um produto meramente ufanista e cego ao imperialismo vigente. Mostrar o homem pleno de suas capacidades de realizar as conquistas e os avanços que deseja, mas cujo afã pode levar à deturpação dos valores humanistas que regeram o pensamento daquela época.

23 de outubro de 2016

Na Estante 66: Se um viajante numa noite de inverno (Italo Calvino)


Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, é um livro para leitores. Escrevendo desta forma parece um enunciado redundante. Todo livro visa um leitor. No caso desse romance do escritor italiano visa um tipo leitor consciente do processo de produção e recepção de uma obra literária. Podemos dizer que Se um viajante numa noite de inverno é um romance metalinguístico e a leitura desta obra resultará ainda mais prazerosa para aqueles interessados e apaixonados pela linguagem como recurso criativo, sendo a literatura uma de suas maiores e longevas representações. Italo Calvino cria uma espécie de boneca russa, com uma narrativa dentro da outra que esconde mais outra e mais uma e mais uma. Colocando no centro de sua trama um leitor e uma leitora, tirando-os de uma posição passiva (daquela de receptor da mensagem por meio do livro) e tornando-os agentes no enredo intrincado e divertido, quase como um jogo ou enigma a ser decifrado. Um livro, de título homônimo ao que você, leitor real, terá em mãos, que possui um erro de impressão e impede a continuidade da leitura do mesmo aproxima dois leitores, um homem e uma mulher, que partem em busca da verdadeira história do livro que compraram que os levam a encontrar outros livros numa procura quase que sem fim envolvendo autores de países distantes e línguas pouco acessíveis e até uma bem-vinda teoria da conspiração. Calvino intercala o “drama” dos leitores protagonistas com as narrativas que eles vão encontrando em sua jornada, cada um com um estilo ou gênero diferente, o policial, o de mistério, o drama existencial, o erótico, o de guerra e etc, cada um interessante ao seu modo. Se um viajante numa noite de inverno acaba sendo uma declaração de amor à literatura, seja a clássica, a clichê ou a experimental (onde este livro acaba se encaixando), amor à bibliofilia, ao objeto livro e o hábito que tira a todos os leitores de sua própria realidade e os inserem noutras imaginárias que refletem, ainda assim, o mundo que os circundam, ajudando-os a compreendê-lo melhor ainda. Fica aqui o convite à leitura com um trecho do primeiro capítulo. Duvido que você, leitor, resistirá em não continuar:

Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: “Não, não quero ver televisão!”. Se não ouvirem, levante a voz: “Estou lendo! Não quero ser perturbado!”. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: “Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!”. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.”

17 de outubro de 2016

Bob Dylan, Nobel de Literatura, e o que isso tem a ver com o meu pai?


Bob Dylan tem para mim sabor de domingo. Os domingos que o meu pai chegava de manhã com pães e frios e um Diário Popular nas mãos. Ao som do cantor americano, ele lia as notícias do jornal enquanto eu pegava o suplemento sobre televisão e inteirava-me sobre os artistas da telinha e os resumos dos próximos capítulos das novelas globais. A trilha sonora também era variada com outros artistas, mas Bob Dylan era uma constante dominical e semanal. Tenho certeza que o hábito da leitura nasceu em mim pela influência destas tardes de domingo, vendo o exemplo do meu pai tão compenetrado com o seu jornal. Infelizmente o gosto pelas canções de Bob Dylan também não foi hereditário. Preferi outros cantores e cantoras ao renomado artista e, agora, Prêmio Nobel de Literatura. Diferente de muita gente, o prêmio não me surpreendeu. O nome dele sempre corria por fora, como possibilidade a não ser descartada e temos que entender a escolha como uma necessidade de renovação do prêmio sueco e expansão do reconhecimento artístico e crítico para além dos gêneros literários mais tradicionais como a poesia, conto e romance. O Nobel de 2015 para a Svetlana Alexijevich, jornalista e autora de não ficção, já dava indícios desta busca por mudança e variabilidade dos membros que concedem esta láurea. E serei egoísta ao ponto de achar que o Nobel de Literatura só foi dado ao Bob Dylan para agradar o meu pai, grande fã, diria até fanático, deste clássico do cancioneiro popular mundial. Nós temos o sério preconceito e a péssima mania de achar que o poder de fruição de artistas inovadores da música, cientes das múltiplas leituras que a linguagem de suas letras propicia, só é capaz de atingir pessoas com formação completa, superior, eruditos, intelectuais, pra quem tem o elitizado “bom gosto”. Meu pai não possui o ensino básico completo e nas conversas sobre a adolescência dele, relatava-me quando escutou Bob Dylan pela primeira vez por acaso, numa rádio à noite antes de dormir, após um duro dia de trabalho (sim, adolescentes trabalhavam para ganhar o sustento), fato que o fez perder o sono e o impeliu a correr no dia seguinte, após o expediente, para uma loja de discos do centro de São Paulo e procurar por um dos álbuns dele. Acredito que este tenha sido um momento crucial na vida do Sr. Alberto, imagino a obra dylaniana intrínseca aos dias do meu pai, indispensável e inseparável, um alento para quem sempre teve uma vida dura, música propiciadora do conforto e “da viagem” que só sentimos ao som de uma canção que fale ao nosso pensamento e ao nosso coração. A vida do meu pai foi muitas vezes suavizada pelos acordes do violão, a poesia das letras e pelo timbre peculiar de Bob Dylan. Talvez o Nobel foi menos para o próprio artista e mais para os fãs dele, tão beneficiados em suas existências pela genialidade dele. Ou sejamos práticos: O Prêmio Nobel de Literatura dado para Bob Dylan, na verdade, foi para deixar o meu pai feliz e ponto!

16 de outubro de 2016

Na Estante 65: Romeu e Julieta (William Shakespeare)


Livro: Romeu e Julieta
Autor: William Shakespeare
Editora: Saraiva de Bolso
Ano: 2011
Páginas: 143

2016 é o ano em que se comemoram os 400 anos da morte de William Shakespeare, o grande nome do Renascimento e considerado o maior autor de todos os tempos. Suas obras se perpetuaram e são encenadas em diversas partes do mundo. Romeu e Julieta é um dos trabalhos mais populares e continua a encantar gerações com a história de amor adolescente que superou o ódio entre duas famílias rivais de Verona do século XVI. Romeu, pertencente à família dos Montecchio, e Julieta, filha dos Capuleto, se conhecem no baile de máscaras dado pelos Capuleto e imediatamente se apaixonam. O resto todo mundo conhece. As histórias de amor são sempre as mesmas, desde que o mundo é mundo. O que diferencia cada uma e as qualificam como “boas” ou “ruins” é justamente a forma como foram contadas. Além do enredo de desencontros que dita, principalmente, o final trágico do casal, temos os mais belos diálogos entre os protagonistas, juras de amor líricas que reforçam o dom do poeta sobre o do dramaturgo (as peças de Shakespeare são em sua maioria releituras de textos antigos, os seus detratores o consideram um impostor e, reza a lenda, não comprovada, de que outros autores escreveram seus mais famosos clássicos teatrais, pouca coisa comprovada até agora). A inevitabilidade do destino, o amor capaz de derrubar as barreiras que somente o ódio constrói em torno das pessoas, das classes sociais, ódio que ultrapassa gerações e constrói rivalidades que não fazem sentido com o passar do tempo, são temáticas que mantêm irretocáveis os apelos desta peça. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Elizabeth Bennett e John Darcy entre tantos outros sobrevivem como exemplos de casais que figuram no imaginário ocidental e justificam a quantidade de releituras e reencenações feitas nos livros, no teatro, TV e cinema, mas sempre é bom recorrer ao original escrito e se deliciar (ou suspirar, no caso dos mais sensíveis e românticos) com a poeticidade do texto shakespeariano.


8 de outubro de 2016

A casa lúgubre

A casa lúgubre permanece silente
E insiste em continuar muda
A TV liga e desliga impaciências
E as pessoas gozam sonos, dores de cabeça e marasmo
Gozam angústias, esperas, letras inexpressivas
Cômodos que abrem e fecham mutuamente
Mãos que espantam fantasmas e moscas com arrudas
Enquanto na cabeça não evitam indecências
Enquanto rins e estômagos contraem-se em espasmos
Enquanto esconde-se a dor dos seus convivas
A sujeira do quarto não incomoda
A poeira causa certa desolação
O caminhar não dá ritmo ao coração central
de um lar desanimado prestes a ruir e enfartar
A casa lúgubre quer cantar músicas de roda
Suas bases desejam requebrar um samba-canção
A casa quer espantar o bem e o mal
A casa deseja finalmente se afogar
Residência vazia que perpetua
Um cenário inexistente revisto em cinema
Incomunicabilidade gritante vinda do baixo
Tesão reprimido explodido noturnamente
Dizem que a solução está no olho de uma rua
Ou melhor seria a venda desse problema
Ganhar-se-ia dinheiro suficiente, eu acho
Ou se enlouqueceria pela casa demente.


2 de outubro de 2016

Na Estante 64: Histórias extraordinárias (Edgar Allan Poe)


Livro: Histórias extraordinárias
Autor: Edgar Allan Poe
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2008
Páginas: 272


Edgar Allan Poe é um daqueles escritores difíceis de classificar. Poeta, crítico literário, contista. Todas estas funções exercidas por ele de forma brilhante. Os contos de Histórias extraordinárias surpreendem pela originalidade dos temas e o estranhamento das personagens que refletem as mesmas obsessões que o escritor americano teve em vida. Obras-primas como O gato preto e O coração delator (o peso da culpa de um crime manifestando-se por meios pouco ortodoxos), O poço e o pêndulo (o requinte da crueldade pela tortura e a proximidade da morte), A carta roubada (trama pioneira de investigação que fez de Poe o pai da literatura policial), A máscara da morte rubra (o inevitável destino que atinge a todos, independente da posição social, que nem o encerrar-se num castelo impede que se conclua), A queda da casa de Usher (um conto que flerta com aquilo que Fernando Pessoa, através do heterônimo Álvaro de Campos, definiu como o "horror pelo desconhecido"), William Wilson (o duplo como uma sombra a ameaçar as maquinações do protagonista, mas não serão os dois lados de uma mesma moeda?), O homem na multidão (a solidão das grandes metrópoles, Poe captando como poucos o espírito da modernidade urbana) possuem, em sua estrutura, o mórbido, o obscuro, o sobrenatural, o mistério, o terror como elementos constantes. Além disso, há uma investigação psicológica das personagens que flertam com o insano e o doentio, lança o leitor para dentro dos seus delírios e a tentativa de racionalização que eles passam diante do inominável. Por isso Poe ainda consegue ser tão relevante nos dias de hoje, sombrios tempos em que o absurdo da realidade nos deixam tão estupefatos quanto à ficção, onde pessoas revelam o que possuem de pior. Era com este pior do ser humano que Poe trabalhava e fazia questão de ressaltar nos seus escritos, o caráter abjeto do indivíduo, que apenas espera o momento certo de vir à tona. Desta forma Poe, um artista cuja obra se entrelaça à sua biografia, inscreveu o próprio nome na história da literatura mundial gozando, na posteridade, de um prestígio que infelizmente não conseguiu quando vivo.

25 de setembro de 2016

A (des)esperança que vem das urnas


Vote na mudança. Para a cidade melhorar. Um candidato honesto. Escuto estes e outros chavões nos carros de som que proliferam nas ruas carapicuibanas e na propaganda eleitoral obrigatória da televisão. Todos os candidatos vendendo-se como o novo, usando, para tal, discursos requentados que datam dos tempos de Pedro Álvares Cabral. Talvez os nossos descobridores tenham dito isso aos indígenas que encontraram: “Nós somos uma nova esperança para a terra de vocês. Chegou a hora da mudança para a sua tribo melhorar, somos uma alternativa para tudo que está aí!!!”, pena que não constam estes diálogos nos autos, nas cartas e crônicas oficiais daquela época para confirmarmos esta minha teoria esdrúxula. E dá-lhe bordões que não colam, jingles chupinhados de hits populares do sertanejo universitário ou da música brega que por si só já são bem ruinzinhos. Desde quando eu era pequeno ouço meus pais reclamarem dos políticos, vibrei com o impeachment do Collor sem ter a menor noção do que era. Lamentei o impeachment de Dilma compreendendo a sujeira das engrenagens que conduziram o país a esta decisão. Cresci e as queixas em relação à política continuam. Parece que política e corrupção são palavras-irmãs-gêmeas, estão intrinsecamente unidas e não há nada a fazer para sanar esta situação, nem ninguém que queira alterar o status quo, pois uma vez dentro do jogo terá que seguir as regras escusas. A raiz está podre e o que brota de podridão não pode ser bom também. E bater panela, partir em procissão pelas avenidas, queimar pneu, brigar e destilar seu ódio ou tentar o diálogo ou o esclarecimento nas redes sociais, depor uma presidente eleita pela decisão do povo serão a solução para que a corrupção deixe de ser inerente, imanente e coerente com a prática política? Mas não esqueçamos é que se ela permanece uma realidade é porque nós, através do voto, perpetuamos este quadro desolador. Será o voto das próximas eleições o salvador da pátria desta vez ou o empurrão que faltava para chegarmos ao fundo do poço? Temo que a segunda opção seja a resposta exata para o que nos aguarda como cidadãos e trabalhadores...

19 de setembro de 2016

Na Estante 63: Lorde (João Gilberto Noll)


Livro: Lorde
Autor: João Gilberto Noll
Editora: Record
Ano: 2014
Páginas: 128

A literatura é pródiga em histórias tristonhas, de caráter depressivo, com personagens em busca de si mesmos ou em fuga deles próprios. Eu, como leitor mazoquista, adoro atravessar estas páginas cheias de conflitos, muitos deles mal ou não resolvidos, deixando o leitor em suspense ou angustiado com o conteúdo das páginas. Lorde, de João Gilberto Noll, não foge a estas parcas definições e ao mesmo tempo se liberta de tais enquadramentos. Ao contar a estória de um escritor convidado por uma instituição inglesa a viajar a Londres, o leitor se defronta com um narrador-protagonista que demora a se situar no local, a entender o que fará naquela cidade estrangeira onde estranhamente sente-se mais a vontade do que em sua terra natal (Porto Alegre) e é neste lugar que vemos o personagem flanar pelas ruas londrinas, cruzar com outros homens que, por sua vez, podem ser interesses sexuais, refletindo sobre sua vida pregressa e os rumos que ela pode tomar enquanto também padece doente no apartamento onde está instalado ou procura um parco conforto numa base maquilante que passa no rosto ou numa tintura que colore o seu cabelo e dá-lhe uma impressão vaga de jovialidade e um aspecto equivocado de um dândi em terra alheia. Ao que parece o escritor já estava em crise e a sua estadia na Inglaterra apenas deflagrou-a novamente ou agravou-a em mais um estágio, ao mesmo tempo esta crise psicológica significa a libertação para ele e o alcance de uma tênue serenidade em sua vida. Lorde pode até enfadar o leitor com algumas passagens onde o narrador disseca a si próprio sem maiores rodeios, provavelmente seja esta a intenção de Noll ao desenvolver seu romance, apenas pretendendo compartilhar o inferno de sua personagem com aquele que o lê e instigando-o a procurar novas pistas sobre o protagonista nas páginas deste romance incomum e, por isto mesmo, único.

7 de setembro de 2016

Vomitaço


Uma situação bastante desconfortável é o enjoo que nos ataca o estômago (geralmente devido a algum alimento, doença ou excesso de bebida) e uma das situações mais degradantes é quando, finalmente, chegamos ao ato em si, a agonia de expelir via oral aquilo que nos incomodava ou nos fazia mal. Hoje concluo que as pessoas ou escolhem remoer seus embrulhos estomacais até mais não aguentar ou não pensam duas vezes lançar boca afora, à maneira de Regan em O Exorcista, o que está a embolar-se dentro da barriga. Hoje eu recorro ao vômito...
Vomito os problemas que me oprimem no trabalho, as dificuldades no trato com os alunos, os desafios que quase sempre resultam em decepção.
Vomito a situação política e todo o futuro incerto que se instala aos nossos olhos e o alheamento de boa parte da população que continua seguindo seus caminhos como se nada de extraordinário tivesse acontecido.
Vomito toda a inaptidão para conciliar as coisas e a preguiça que impede de concluir outras e a mania de culpar sempre o tempo.
Vomito os livros que li e aquele monte que se empilha e aguarda uma atenção mínima ou a primeira leitura.
Vomito os planos não concluídos, aqueles frustrados, e os que não cansam de povoar a mente e que ainda me enchem de novas esperanças.
Vomito literalmente porque exagerei um pouco nos fermentados ou destilados, vomito por encarar o produto na privada que é tão nojento quanto à própria realidade. No entanto esse vômito é algo natural, natural como a nossa existência.
Vomitar vai ser o meu grito de independência!

17 de julho de 2016

Na Estante 62: Toda Poesia (Paulo Leminski)


Paulo Leminski é um dos poetas brasileiros mais pop do século passado. Tem seus versos frequentemente citado pelas redes sociais, sua antologia de poemas, Toda Poesia, publicada pela Companhia das Letras, foi um grande sucesso de vendas que apenas demonstra o apelo popular deste artista curitibano que marcou a poesia brasileira contemporânea com humor, concisão e um domínio com as palavras que ora flertavam com a aparente simplicidade, ora com a erudição e o alto domínio do fazer poético.
Toda Poesia reúne todos os trabalhos de Lemisnki publicados em vida e alguns textos inéditos, organizados por sua esposa Alice Ruiz, além disso, traz textos escritos por José Miguel Wisnik, Caetano Veloso, Haroldo de Campos, Wilson das Neves e a própria Alice Ruiz sobre a estilística e a poética desse escritor que morreu precocemente em decorrência de uma cirrose hepática, mas cuja voz não silenciou e os ecos ainda se escutam por aí, nunca sem perder a frequência.
A leitura de um livro de poemas é sempre um convite à releitura, é um ato que não se esgota em si, do primeiro ao último verso, ainda mais com Leminski que parece brincar e se divertir com a linguagem usando e abusando dos trocadilhos, das aliterações e assonâncias, das metáforas nunca convencionais tirando a palavra de seu estado literal para outro nível de entendimento. Além disso, Leminski foi um dos grandes divulgadores das formas breves como o haikai, texto tradicional japonês que ele dominou como poucos também.
Em meio a tanto pedantismo no meio literário, Leminski é tudo menos careta, até mesmo quando flerta com a poesia mais tradicional, incorporou a filosofia beatnik, o Tropicalismo, não se levando a sério, mas levando o seu ofício de produzir poesia com esmero, não com o peso da obrigação ou predestinação, mas com a leveza e o prazer do lidar com as palavras que isso traz.

10 de julho de 2016

Spoiler-vida


A vida é um grande spoiler. Um final que por todos é sabido. Desde quando damos as caras neste mundo velho sem porteira que a data da nossa season finale está definida. Às vezes vivemos temporadas curtas, temporadas longas; somos sucesso de público, mas não de crítica, somos unanimidade crítica e sequer temos audiência, às vezes a exibição acontece num horário obscuro sem que ninguém nos note. Vivemos uma comédia com uma claque surda de se ouvir, choramos os mais diferentes níveis de dramas, em alguns momentos a vida é um procedural investigativo, um suspense ou está repleta do mais puro horror. E haja imaginação para tanta fantasia, tantos monstros e seres extraordinários para suspender a realidade, aliviá-la ao menos. Quando será cancelada essa série que, por mais aparentemente insignificante que seja, sempre tem um espectador à espreita, ansioso dos novos acontecimentos, dos plot twists que transformarão por completo a vida daqueles personagens? Como virá este cancelamento? Por meio de uma morte natural, tranquila, na cama? Pelas mãos vis e assassinas de um ser homicida? Através de uma doença que conseguiu superar todas as nossas defesas? Causado pela bala irresponsável de um policial que se confundiu mais uma vez no exercício de sua função? Ou porque algum escritor/roteirista invisível o quis? Que mão inefável conduz tantas figuras importantes ao seu destino inexorável, que tempera com melodrama, clichês, estilo e experimentação as trajetórias diversas pelo mundo. O maior spoiler de nossas existências é a morte e por mais que já prevíssemos tal fado ainda nos assustamos com ela, nos surpreendemos com a sua iminência. Fácil é nos preocuparmos com o que vai acontecer no próximo episódio de nossa série favorita, desta forma esquecemos os nossos destinos por quase uma hora ou mais, até que a óbvia figura venha fazer uma visitinha de última hora...

5 de julho de 2016

Na Estante 61: O homem duplicado (José Saramago)


Livro: O homem duplicado
Autor: José Saramago
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2008
Páginas: 288

Há muito tempo que li Ensaio sobre a cegueira, uma das obras mais conhecidas de José Saramago, e me recordo que o livro me incomodou e me conquistou bastante. Também tentei naquele tempo, com pouquíssimo sucesso, ler Memorial do convento, leitura abandonada após algumas páginas, porém entendo que ainda faltava-me certa maturidade (ou um pouco mais de repertório) como leitor. Ainda pretendo reler Ensaio sobre a cegueira, não cogito ainda reencontrar as páginas de Memorial do convento, porém o que me levou à leitura de O homem duplicado não foi sequer a fama e a qualidade do único escritor em língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura, mas a necessidade de assistir justamente à sua adaptação para o cinema, aquela com o Jake Gyllenhaal. Ler o livro antes de verificar como ele foi transposto para a telona.
Saramago retoma um assunto clássico da nossa literatura que é o duplo. Dostoievski já o abordou no romance O duplo, Borges também escreveu o conto O Outro e muitos devem se lembrar de William Wilson de Edgar Allan Poe que resgata a quase mesma situação: a de um personagem que encontra um homem semelhante a si. No caso do romance do escritor português este fato misterioso ocorre com o professor de História Tertuliano Máximo Afonso que descobre a existência de um homem idêntico a ele em idade e feições após assistir um filme em sua casa, uma comédia leve recomendada por um colega de trabalho. Surge daí uma verdadeira obsessão para descobrir a identidade desta pessoa, que é um ator em discreta ascensão. Além disso, Tertuliano é um homem divorciado e vive um romance titubeante com uma bancária com quem ele não deseja um maior envolvimento.
Temos a presença também de um narrador onisciente em 3ª pessoa que faz questão de interferir no enredo que está contando para fazer diversas digressões e ironias a respeito da História, da natureza humana ou para observar os rumos das personagens que fazem parte da trama. Além disso, já é uma marca estilística de Saramago fazer o uso de vírgulas ao longo do texto, onde diálogos (alguns deles acontecem entre o protagonista e o “senso comum”, que tenta dissuadir Tertuliano de algumas decisões e propiciam alguns ótimos momentos) e considerações se misturam no parágrafo, recurso que confunde muitos leitores menos afeitos à prosa de Saramago ou que o estão lendo pela primeira vez, mas que não se torna um impeditivo com o correr das páginas (Saramago recomenda que leiam os textos dele em voz alta para que não haja confusão com o uso das vírgulas).
A perplexidade da possível existência de alguém parecido com você (praticamente uma cópia) que pode dar novas possibilidades a sua existência, a possibilidade da troca de identidade ou da perda da própria. Um “eu” sempre em jogo e em risco de esvair-se, desfigurar-se diante de tantas necessidades, diante da prisão de uma vida social (que envolve o trabalho, um relacionamento amoroso, a família, entre tantas coisas) que também contribui com a anulação de si mesmo para que seja ou tenha aquilo que insiste-se em chamar de personalidade, condicionada a tantos fatores subjetivos. 
A prosa de O homem duplicado flerta com este tema, acrescentando mais uma perspectiva ao tema do duplo, que ainda exerce grande fascínio no público literário e ficcional, e possui uma trama interessante e surpreendente com um narrador que muitas vezes rouba a cena da narrativa e torna a leitura ainda mais prazerosa.

27 de junho de 2016

Literal

Minh’alma é literal
Não cabe o transversal
Como ser universal
Para aquilo que só é?
Quero a rigidez do signo
O arbitrário da língua
O significado uno
Desejo a etiqueta-mundo
Nomeá-lo-ei coisa
Coisa literal
E por ser Terra
Coisa transversal
E por ser mundo
Coisa universal


21 de junho de 2016

Na Estante 60: Caetés (Graciliano Ramos)


Livro: Caetés
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Ano: 2013
Páginas: 320

Caetés foi o primeiro romance publicado de Graciliano Ramos. Nas páginas deste livro já é possível entrever, em sua estreia literária, o mestre da escrita de romances que se notabilizou com a publicação de diversas obras importantes. Ao narrar a estória de João Valério que se envolve com Luísa, a esposa de seu patrão, Graciliano, à maneira de um Eça de Queirós, uma de suas influências, faz um retrato da pequena cidade de Palmeira dos Índios, limitada em sua mediocridade, preocupada com a vida alheia e com situações tacanhas e triviais.
O próprio protagonista é um produto desta região, João Valério pretende escrever um romance histórico onde ele relata o famoso episódio do Bispo Sardinha que foi devorado pelos índios caetés, porém o rapaz não consegue avançar mais do que algumas páginas deste trabalho e o que conseguiu desenvolver ainda não é satisfatório.
Caetés é um romance que possui seus defeitos, Graciliano ainda está preso a uma escrita mais detalhista, talvez por uma influência dos textos realistas com os quais cresceu lendo, e por vezes a insistência em retratar a rotina de poucas novidades dos moradores de Palmeiras dos Índios acabou deixando a leitura um pouco mais arrastada, porém a concisão e uma análise um tanto quanto distanciada e objetiva das personagens se impõem em algumas páginas e movem a trama para a frente tirando o enredo do marasmo.
O debut de Graciliano não chega a ser, então, um clássico como Vidas Secas, Angústia ou São Bernardo, no entanto serve como registro de um artista em desenvolvimento e consciente de seu projeto artístico e anuncia aquele que se tornaria um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.


17 de junho de 2016

Ecos de Orlando...


A dor indizível, ignóbil, a dor ignominiosa da morte. A morte que veio pela força da bala, pela violência da bala, pela violência e pelo ódio.

Ódio porque outra palavra alguma classifica a atrocidade, a chacina, a perda de vidas em vão. Agressiva e dura como pedra. Ódio extremo, recalcado, explodido e personificado em morte. Ódio que ceifa vidas, que empilha corpos. O ódio que conduz a humanidade ao primevo, ao ranger dos dentes, à era dos tacapes, fazendo-nos avançar, rápido e ao contrário, as casas da evolução. Para trás, irremediavelmente para trás...

10 de junho de 2016

Na Estante 59: Chapeuzinho Amarelo (Chico Buarque)


Livro: Chapeuzinho Amarelo
Autor: Chico Buarque
Editora: José Olympio
Ano: 2003
Páginas: 35

Textos infantis possuem uma simplicidade que engana a princípio. Por trás desta linguagem mais pueril esconde-se todo um artifício formal que o escritor deve utilizar para que o texto carregue ao mesmo tempo a literariedade e a inteligibilidade para a criança que não deve, de modo algum, ser subestimada. Inclui-se neste tipo de empreitada literária o já clássico livro de Chico Buarque, Chapeuzinho Amarelo que é uma releitura do conto de fadas Chapeuzinho Vermelho, já narrada pelos irmãos Grimm e Charles Perrault, para falar do medo que ronda os pensamentos de toda criança.
Consagrado compositor da Música Popular Brasileira, escritor de romances celebrados pela crítica especializada, Chico Buarque também enveredou pela escrita de livros infantis e Chapeuzinho Amarelo, publicada pela primeira vez em 1979, a obra mais famosa desta sua vertente. Com lúdicas e coloridas ilustrações de Ziraldo, Chapeuzinho Amarelo é a protagonista que nutre um medo de todas as coisas, vivendo assim paralisada pelo receio de algo ruim acontecer-lhe. Até que ela encontra pelo caminho aquilo que mais teme: o lobo. E face a face com a figura que sempre a assustou, mesmo não tendo visto um único lobo em sua vida, faz com que feneça justamente o medo do medo do medo do medo do lobo que a perseguia. Libertação que proporciona a ela viver a infância plenamente. 
Na tessitura desta obra, Chico Buarque brinca com as palavras, invertendo os seus valores semânticos, fazendo trocadilhos e explorando aliterações e assonâncias, o que torna a leitura mais rica e divertida, cada vez que for relida, a olhos adultos mais interessados na exploração da linguagem do compositor e romancista ou a olhos infantis que se deliciarão com a trajetória desta personagem marcante tão próxima a eles.

3 de junho de 2016

Na Estante 58: Ficção e confissão (Antonio Candido)


Livro: Ficção e confissão – Ensaios sobre Graciliano Ramos
Autor: Antonio Candido
Editora: Editora 34
Ano: 1992
Páginas: 112

Ficção e confissão – Ensaios sobre Graciliano Ramos é uma compilação de textos críticos escritos por Antonio Candido sobre a obra de Graciliano Ramos. O leitor deste blog pode ter percebido que o Velho Graça tem sido um escritor recorrente entre os livros analisados na coluna “Na estante” e a leitura dos ensaios do célebre especialista literário ajuda a clarear ainda mais o entendimento a respeito dos trabalhos do autor de Vidas Secas, Angústia e São Bernardo. Primeiramente porque Candido faz uma análise precisa sobre os escritos de Graciliano, muitas vezes se opondo ao que os especialistas consideraram como qualidade ou unanimidade, principalmente no que concerne ao livro Angústia, por exemplo.
Antonio Candido não se rende apenas em elogios formais, mas capta também os “defeitos” que perpassam algumas das estórias produzidas pelo escritor alagoano, defeitos estes que não eclipsaram a qualidade literária dos livros que escreveu. Candido verifica que a obra de Graciliano Ramos se divide entre duas fases, uma ficcional e outra memorialística. Não que uma não carregue características da outra, não são dois momentos estanques na carreira de Graciliano, pois a leitura das obras ditas “de memórias”, carregam um tratamento dos fatos com uso de elementos dos textos narrativos (como narrador, personagens, espaço, tempo etc.) além de agregar informações da vida de Graciliano que também se encontram reveladas, de certa forma, como situações imiscuídas nos enredos de seus textos ficcionais mais conhecidos.
Acaba sendo revelador que, se o leitor quiser, poderá iniciar o contato com a obra graciliana pelos últimos textos que flertam com o autobiográfico (Infância e Memórias do Cárcere) para depois identificá-los nas narrativas redigidas anteriormente, ou vice-versa. Ficção e confissão traz consigo todo o domínio de escrita e o profundo conhecimento do fazer literário já tão disseminados de Antonio Candido, este que é um dos grandes nomes da crítica literária brasileira, ou seja, um gigante escrevendo sobre outro.


31 de maio de 2016

Não é não!


Não é não!
Não é recusa. Não é negação!
Quando o não é dito não cabe um mas, um no entanto, nem um porém.
Não cabe culpa em quem diz não, diz para, diz chega.
Responsabiliza-se aquele que infringe, despótico, a quem ignora, arbitrário, aquilo que não se quer mais.
Culpa-se a insistência do algoz, sua falta de empatia, a insensibilidade, a força bruta. Acusa-se quem arranca gemidos de dor, quem desencadeia o choro pela violência.
Vileza, malvadez, ojeriza. Para isto não há um mas, um no entanto, nem um porém. Cabe apenas um ponto final.


23 de maio de 2016

Bode expiatório


Em tempos de crise, é preciso um bode expiatório para depositarmos nossas culpas e expurgá-las convenientemente. Mata-se apenas um da espécie, mesmo que outros também mereçam o sacrifício.
Em tempos de crise, os bodes, como bons rebanhos, são tangidos e conduzidos numa grande massa, para cá e para lá, para cima e para baixo, manobrados de acordo com a vontade de outrem, mesmo que o destino de tal caminhada seja o próprio abate ou a imolação do próximo.
Em tempos de crise, alguns grupos de bodes protestam mais e balem o quanto podem, irracionalmente, como que possuídos por algum Belzebu, proferindo palavras de ordem, de ódio, saudosos de um tempo que, na verdade, não haverá mais.
Em tempos de crise, que sangrem apenas um bode, pois assim não comentamos sobre os outros que, ironicamente, são culpados e permanecem inatingíveis, afinal a responsabilidade é somente daquele único que caiu e tingiu o chão de rubro. Logo em seguida assumem a liderança lobos que nomeiam raposas que convocam ratos e mais uma corja de insetos como assessores. Alguns bodes comemoram, outros revoltam-se e o estado das coisas permanece o mesmo. Para ambos...
Muitos bodes resistem, insistem, tentam convencer os seus semelhantes do contrário, o mal está feito e é uma tarefa quase inglória lutar. Quase, mas não impossível... 
Um bode bale num reconhecível vibrato: Será? Será? Será?
Essa historinha pode ser contada com bodes, carneiros, bois e outros ruminantes como personagens... Menos com tucanos, esses costumam a flanar impunes por aí...


22 de maio de 2016

Na Estante 57: Angústia (Graciliano Ramos)


Livro: Angústia
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Ano: 2011
Páginas: 350

Luís da Silva é um dos grandes protagonistas desenvolvidos por Graciliano Ramos e Angústia, o romance mais atípico do escritor alagoano, pelo conteúdo existencial e psicológico. Funcionário público, pobre, morador de uma puída pensão, Luís acaba fazendo amizade e depois se apaixonando e namorando a vizinha Marina. Conhecemos um pouco de sua rotina, os outros moradores da pensão, os colegas de trabalho e Julião Tavares, rapaz de boa situação financeira, gordo, parnasiano a quem Luís da Silva alimenta um profundo desprezo e irritação. Até que Julião surge como rival e uma ameaça ao seu relacionamento com Marina.
Desta forma o leitor mergulha na mente deste personagem obsessivo, depreciativo de si mesmo, cujas reminiscências da infância e juventude vêm e vão. Por ser um texto de cunho mais psicológico, que se aproxima dos fluxos de consciência que marcaram a literatura da primeira metade do século XX, apesar de não ao ponto do radicalismo de um Joyce ou Proust, mas provavelmente inspirado em outro autor que dedicou muitas páginas aos recônditos obscuros da mente humana, Fiódor Dostoiévski, Graciliano entrega, com Luis da Silva, o seu Raskolnikov (mesmo que ele negue a influência do clássico russo).
Apesar disso, a instabilidade psicológica também leva o texto a certa repetição proposital de ideias, memórias e imagens mentais que pode cansar um leitor mais impaciente. Problema que o próprio Graciliano, em carta ao crítico Antonio Candido, reconhece. Incômodo e perfeccionismo que o escritor alimenta em relação a outros de seus escritos, demonstrando a criticidade com que enxerga a sua obra e que reverbera no seu estilo. Se em Angústia não encontramos, num grau maior, a mesma secura e objetividade de outros romances (sua marca registrada), porém os leitores podem se deparar com o seu trabalho mais emocional e mergulhar nos pensamentos perturbadores e nos tormentos de Luís da Silva.

11 de maio de 2016

Está posto


      Está posto
o caos
está posto
o mal
está morto
e vem algo pior

Está morto
o sonho
está morto
o tal
foi deposto
e vem algo melhor?

Foi deposto
o amor
foi deposto
e o resto
é desgosto
que já sei de cor

É desgosto
o que sinto
é desgosto
e as ideias
esgoto
de algo maior

Esgoto
o que está posto
é esgoto
do morto
deposto
ao redor


1 de maio de 2016

Na Estante 56: Vidas Secas (Graciliano Ramos)


Livro: Vidas Secas
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Mar

Talvez Vidas Secas seja o livro mais celebrado (junto com Angústia) de Graciliano Ramos, principalmente por escapar de maneira magistral dos vícios e clichês de uma trama regionalista, fugindo ao que se convencionou chamar de romance regionalista. Afinal não é apenas a temática da seca que fustiga e oprime Fabiano, Sinha Vitoria e sua família, mas também, a problemática da linguagem que permeia e determina a relação que as personagens possuem entre si e condiciona a interação destas com o meio onde vivem.
Fabiano, Sinha Vitoria, o Menino Mais Velho, o Menino Mais Novo e a cachorra Baleia saem em retirada para escapar da seca e encontram abrigo numa fazenda onde Fabiano começa a trabalhar como vaqueiro para o dono do local. Em cada capítulo conhecemos um pouco das facetas das personagens, inclusive a cachorra Baleia (no famoso episódio homônimo), as dificuldades de Fabiano em se expressar e o quanto isto complica seu relacionamento com as pessoas e consigo, uma vez que não é capaz de dar concretude até mesmo aos próprios pensamentos. Sinha Vitoria e seus desejos de ter uma cama de couro, como a de seu Tomás da Bolandeira. O Menino Mais Novo e a aspiração de ser vaqueiro como o pai, o Menino Mais Velho e as dúvidas (como o significado da palavra inferno, por exemplo) que possui e a relação quase primitiva com a natureza dos entornos da fazenda. A comunicação entre esta família se dá pelo silêncio, por gestos, monossílabos ou grunhidos guturais, aproximando-os da figura animal que todos nós somos, se pensarmos de uma maneira ancestral. Por esse processo de reificação (diferente daquele retratado no Naturalismo), destaca-se Baleia como uma figura humanizada, observando aqueles com quem convive e alimentando esperanças e anseios (um osso a cozinhar, o medo de represálias por parte de Sinha Vitória, um mundo cheio de preás gordos, enormes...). 
Os capítulos são quase que independentes um do outro, o de nome Baleia, por exemplo, fora publicado inicialmente como um conto e incorporado ao romance posteriormente, cuja estrutura circular dá unidade ao enredo, unidade esta atingida por um narrador onisciente que faz uso brilhante do discurso indireto livre, amalgamando suas impressões com as reflexões das personagens que dificilmente chegam a uma conclusão sobre a própria realidade, fora a necessidade de sobreviver às condições adversas (que falam sempre mais alto), pois não desenvolveram uma linguagem mais complexa que lhes permitam codificar e interpretar o mundo ao seu redor. E por não conseguirem sair deste círculo inevitável é que o romance Vidas Secas impacta até hoje.

14 de fevereiro de 2016

A gramática


A gramática do Bechara. A gramática do Celso Cunha. A gramática do Azeredo. As outras inumeráveis gramáticas, infindáveis, inalcançadas? A compreensão da língua, o todo arbitrário, um amontoado de signos como o dicionário que quase ninguém lê ou procura compreender. Nada escapa a elas e tudo me escapa. Definições que vêm e vão como lembranças, a gramática explica-me, mas não acompanha a dinâmica que a própria língua sofre com as diversas interferências e transformações do dia a dia. A gramática parada no tempo, no templo da estante. A gramática que me indica como ordenar palavras, muitas vezes sem me dizer o porquê. A gramática que me dá uma surra homérica (da qual sobrevivo não tão heroicamente), símbolo da resistência, da insistência, da resiliência. A gramática que me ajuda a escrever este texto e a compreender outros escritos que possibilitam o entendimento da própria gramática. A gramática existe como todas as outras coisas, ela é seu próprio significante e significado, para ordenar o mundo, para coordenar universos linguísticos, para coisificá-los n’algo que somente a linguagem pode ser. 

9 de fevereiro de 2016

Na Estante 55: Sagarana (João Guimarães Rosa)


Livro: Sagarana
Autor: João Guimarães Rosa
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2001
Páginas: 416

''De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira.''
(Carta de João Guimarães Rosa a João Condé, revelando segredos de Sagarana)

O trecho acima comprova o caráter especial da prosa produzida por Guimarães Rosa que escapa a qualquer fácil definição. Reduzir o trabalho de Guimarães ao rótulo de regionalista é não compreender o trabalho artístico e apaixonado que o escritor fez com a palavra. As novelas de Sagarana comprovam este fascínio com o que as palavras carregam de mistério e musicalidade e não somente aquelas que ditam o bom falar e escrever que até hoje é apregoado pelos mais puristas, mas também aquele jargão que encontramos na rua, no campo etc., entre quem, aparentemente, não domina a norma culta, e, no entanto contribui para a riqueza da nossa língua portuguesa e sua diversidade. Outra qualidade do autor de Grande Sertão: Veredas é a capacidade de universalizar aquilo que é local, afinal o jagunço, o boiadeiro, a lavadeira, o fazendeiro dos confins do sertão também compartilham sentimentos, dúvidas, crenças, afeto, comuns a todos nós.
Sagarana é composto por nove novelas: O burrinho pedrês, A volta do marido pródigo, Sarapalha, Duelo, Minha gente, São Marcos, Corpo fechado, Conversa de bois e A hora e a vez de Augusto Matraga. Todos ambientados no sertão (de Minas Gerais, Bahia e outros locais) principal matéria-prima necessária para o escrever do mestre da literatura modernista.
São estórias de malandragem, superação ou sinestesia animal, vingança, redenção pela religião (o elemento místico e religioso circula com naturalidade em muitas das estórias narradas neste livro e é uma constante na obra roseana), traição e amor. Guimarães Rosa é um artífice da linguagem e, claro, não podemos deixar de mencionar a inovação linguística na forma de narrar, incorporando o léxico do campo, propondo novas expressões (os tão comentados neologismos) e apropriando-se de outras palavras (os arcaísmos e os regionalismos, por exemplo) para ressignificá-las em suas estórias.
O leitor pode, num primeiro momento, estranhar as narrativas e a forma como foram elaboradas, mas Guimarães tem uma escrita muito próxima da oralidade e as novelas ganham um tom de um “causo” sendo contado por alguém a quem lê e o texto flui de uma maneira muito agradável até o final de cada uma das novelas.