3 de janeiro de 2016

Na Estante 52: Predadores (Pepetela)


Livro: Predadores
Autor: Pepetela
Editora: Dom Quixote
Ano: 2006
Páginas: 383

Predadores (2005) é um romance escrito pelo angolano Pepetela (pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos), autor de outras obras como Mayombe (1971) e A geração da utopia (1992). Pepetela participou ativamente da guerrilha pela libertação de Angola da colonização portuguesa e sua literatura trata muito deste período importante, quando a independência do país aconteceu tardiamente em 1975 e teve Agostinho Neto como um dos grandes expoentes políticos e literários daquela época. No entanto Predadores faz um retrato irônico de tudo que sucedeu à revolução em seu país, onde a corrupção e a busca pelo poder resultaram em diversas guerras civis e violência e miséria para seu povo. Predadores é uma obra de desencanto antes de tudo.
O que chama atenção do livro, além da temática importantíssima para compreender a realidade social de Angola, é o uso de uma narrativa que recusa o convencional, abusando das idas e vindas ao tempo e fazendo um uso curioso e esporádico de um narrador que, por vezes, flerta com uma narrativa tradicional, recorrendo ao discurso indireto livre, narrador este que também dialoga com o leitor, propiciando uma sensação bem-vinda de estranhamento à obra.
Predadores conta a estória de Vladimiro Caposso, um empresário inescrupuloso, que ascendeu socialmente ao ter se filiado ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), após a independência de Angola. O leitor acompanha a trajetória de VC (como é chamado pelo narrador ao longo do romance) desde quando era um jovem ambicioso, funcionário de um estabelecimento comercial cujo dono o deixa sob a sua responsabilidade (quando a incerteza dos conflitos que resultaram na independência do país era ainda muito grande, principalmente para os portugueses que lá moravam) até quando perde diversos aliados e passa por uma crise em sua empresa. Ao longo do romance conhecemos também o jovem Nacib, morador dos musseques (o equivalente a nossas favelas) que se envolve com a filha mais nova de Vladimiro Caposso e que almeja formar-se engenheiro mecânico, Sebastião Nunes, que conheceu VC na juventude, idealista advogado que irá processar o empresário por prejudicar um vilarejo ao adquirir uma fazenda cujo território impede a alimentação do gado local e o acesso à água aos moradores, desfilam também para o leitor políticos outrora camaradas engajados na luta pelo povo e que agora vivem do aproveitamento do dinheiro público em benefício próprio e da influência que possuem no partido e nos governos atuais. Vladimiro Caposso mesmo é um personagem representante de toda a situação política (repleta de predadores como ele) que dominou Angola nas décadas que sucederam a 1975.
Pepetela não segue uma narrativa tradicional, começo, meio e fim se misturam, cada capítulo ganha o ponto de vista de uma personagem diferente e o tom sarcástico predomina num narrador em 3ª pessoa que de vez em quando na narrativa faz as suas intervenções para dialogar jocosamente com o leitor. Vladimiro Caposso, protagonista do romance tem mais semelhanças com os políticos brasileiros do que imaginamos. A própria realidade de Angola, por mais que distante, continentalmente, aproxima-se da nossa em muitos aspectos. Predadores pode muito bem ser um livro para compreensão do universo político e social angolano quanto ser uma introdução à riquíssima literatura produzida pelos escritores e escritoras oriundos dos países africanos lusófonos.

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