12 de janeiro de 2016

Na Estante 53: Verão (J. M. Coetzee)


Livro: Verão
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2010
Páginas: 280

Ok, podem reclamar. J. M. Coetzee de novo. Mas o que eu posso fazer? O cara é bom. Então vamos a “Verão”, que encerra a trilogia “Cenas da Vida na Província”, precedida por “Infância” e “Juventude”. 
Neste terceiro livro, J. M. Coetzee quebra toda a narrativa iniciada nas obras anteriores e desta vez o protagonista é já um autor consagrado e morto. Um jovem chamado Vincent decide escrever a sua biografia e o livro é composto também por entrevistas em que conhecemos um pouco das facetas de Coetzee pelo olhar de outras pessoas que tiveram contato com ele após o seu retorno à África do Sul para cuidar do pai: Margot, uma prima que também foi amiga de infância dele; Julia, uma vizinha casada com quem Coetzee teve um relacionamento; Adriana, dançarina brasileira de quem Coetzee é professor de língua inglesa de uma de suas filhas; Martin, um senhor com quem o protagonista teve discreta amizade, após concorrerem ambos a uma vaga de professor numa universidade; Sophie, professora universitária com quem Coetzee dividiu algumas aulas e com quem também teve um caso. 
Assim o leitor entende (ou tenta ao menos) compreender a personalidade difícil de Coetzee já adulto e sua pouca afeição ao convívio social (alheio quase ao ambiente de apartheid em seu país) e até mesmo amoroso. Coetzee não poupa a si próprio, como personagem, de críticas e ironia, claro, lembrando que, antes de tudo, o romance não passa de uma obra ficcional e não uma autobiografia tradicional. Não devemos confiar no narrador (quando este aparece esparsamente na forma de diário no início e final do livro) ou no colóquio das outras personagens ao fazerem seus depoimentos. 
Comparando os dois primeiros livros com este “Verão”, considero este último inferior. Como foi escrito antes, a narrativa é quebrada por entrevistas, porém se elas trazem um “olhar de fora” e lançam luz sobre o protagonista, deixam a estória mais fragmentada e frágil, de menor unidade do que, por exemplo, com o uso da narração em terceira pessoa dos romances anteriores (quiçá Coetzee quisesse evitar ter feito uma convencional trilogia como tantas que existem na literatura atual). Há um certo estranhamento na escolha estilística quanto ao formato deste terceiro livro, mas não tira o interesse do leitor que, como Vincent a recolher as impressões sobre o seu biografado, monta um quebra-cabeças a respeito do personagem que acompanhou por três livros e, ainda assim, este permanece um enigma aos nossos olhos.

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