31 de janeiro de 2016

Retrato da cidade quando viva


A cidade continua a correr
Entre buzinas e fumaças
Entre ronco de motores
Entre gente apressada,
engravatada, neurastênica
A cidade sua com o trabalho
Assusta-se com a multidão
Com a pobreza e a barbárie
Luta feroz contra o tempo
Mal almoça, mal toma o café
O riso do mendigo quebra o ritmo
A criança pedinte no semáforo
Torna denso o clima já insuportável
O concreto fervilha ao sol rachante
Cidade onde ninguém se olha
Cidade indiferente e relapsa
Que abandona os seus à própria sorte
Nas filas dos bancos
Nas praças e alamedas
Na busca pelo emprego
Displicente com os destinos
Que vagam como sangue em veias
Pelas suas ruas, avenidas e becos
E assim o trabalhador se indigna
E assim o casal encontra-se ao acaso e se apaixona
E o estrangeiro ou o migrante perdem-se na imensidão
Então a cidade segue o seu rumo
Ao infinito, ao moto perpétuo, ao caos
Rumo à noite que repousa como bálsamo
Ameniza relógios biológicos
E o silêncio se estende, enfim
Para dormir, para sonhar, para vagar insone
E a cidade se distrai e cochila
Para despertar assustada no dia seguinte
(Pois sempre acorda atrasada)
E recomeçar tudo outra vez...

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