14 de fevereiro de 2016

A gramática


A gramática do Bechara. A gramática do Celso Cunha. A gramática do Azeredo. As outras inumeráveis gramáticas, infindáveis, inalcançadas? A compreensão da língua, o todo arbitrário, um amontoado de signos como o dicionário que quase ninguém lê ou procura compreender. Nada escapa a elas e tudo me escapa. Definições que vêm e vão como lembranças, a gramática explica-me, mas não acompanha a dinâmica que a própria língua sofre com as diversas interferências e transformações do dia a dia. A gramática parada no tempo, no templo da estante. A gramática que me indica como ordenar palavras, muitas vezes sem me dizer o porquê. A gramática que me dá uma surra homérica (da qual sobrevivo não tão heroicamente), símbolo da resistência, da insistência, da resiliência. A gramática que me ajuda a escrever este texto e a compreender outros escritos que possibilitam o entendimento da própria gramática. A gramática existe como todas as outras coisas, ela é seu próprio significante e significado, para ordenar o mundo, para coordenar universos linguísticos, para coisificá-los n’algo que somente a linguagem pode ser. 

9 de fevereiro de 2016

Na Estante 55: Sagarana (João Guimarães Rosa)


Livro: Sagarana
Autor: João Guimarães Rosa
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2001
Páginas: 416

''De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira.''
(Carta de João Guimarães Rosa a João Condé, revelando segredos de Sagarana)

O trecho acima comprova o caráter especial da prosa produzida por Guimarães Rosa que escapa a qualquer fácil definição. Reduzir o trabalho de Guimarães ao rótulo de regionalista é não compreender o trabalho artístico e apaixonado que o escritor fez com a palavra. As novelas de Sagarana comprovam este fascínio com o que as palavras carregam de mistério e musicalidade e não somente aquelas que ditam o bom falar e escrever que até hoje é apregoado pelos mais puristas, mas também aquele jargão que encontramos na rua, no campo etc., entre quem, aparentemente, não domina a norma culta, e, no entanto contribui para a riqueza da nossa língua portuguesa e sua diversidade. Outra qualidade do autor de Grande Sertão: Veredas é a capacidade de universalizar aquilo que é local, afinal o jagunço, o boiadeiro, a lavadeira, o fazendeiro dos confins do sertão também compartilham sentimentos, dúvidas, crenças, afeto, comuns a todos nós.
Sagarana é composto por nove novelas: O burrinho pedrês, A volta do marido pródigo, Sarapalha, Duelo, Minha gente, São Marcos, Corpo fechado, Conversa de bois e A hora e a vez de Augusto Matraga. Todos ambientados no sertão (de Minas Gerais, Bahia e outros locais) principal matéria-prima necessária para o escrever do mestre da literatura modernista.
São estórias de malandragem, superação ou sinestesia animal, vingança, redenção pela religião (o elemento místico e religioso circula com naturalidade em muitas das estórias narradas neste livro e é uma constante na obra roseana), traição e amor. Guimarães Rosa é um artífice da linguagem e, claro, não podemos deixar de mencionar a inovação linguística na forma de narrar, incorporando o léxico do campo, propondo novas expressões (os tão comentados neologismos) e apropriando-se de outras palavras (os arcaísmos e os regionalismos, por exemplo) para ressignificá-las em suas estórias.
O leitor pode, num primeiro momento, estranhar as narrativas e a forma como foram elaboradas, mas Guimarães tem uma escrita muito próxima da oralidade e as novelas ganham um tom de um “causo” sendo contado por alguém a quem lê e o texto flui de uma maneira muito agradável até o final de cada uma das novelas.