9 de fevereiro de 2016

Na Estante 55: Sagarana (João Guimarães Rosa)


Livro: Sagarana
Autor: João Guimarães Rosa
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2001
Páginas: 416

''De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira.''
(Carta de João Guimarães Rosa a João Condé, revelando segredos de Sagarana)

O trecho acima comprova o caráter especial da prosa produzida por Guimarães Rosa que escapa a qualquer fácil definição. Reduzir o trabalho de Guimarães ao rótulo de regionalista é não compreender o trabalho artístico e apaixonado que o escritor fez com a palavra. As novelas de Sagarana comprovam este fascínio com o que as palavras carregam de mistério e musicalidade e não somente aquelas que ditam o bom falar e escrever que até hoje é apregoado pelos mais puristas, mas também aquele jargão que encontramos na rua, no campo etc., entre quem, aparentemente, não domina a norma culta, e, no entanto contribui para a riqueza da nossa língua portuguesa e sua diversidade. Outra qualidade do autor de Grande Sertão: Veredas é a capacidade de universalizar aquilo que é local, afinal o jagunço, o boiadeiro, a lavadeira, o fazendeiro dos confins do sertão também compartilham sentimentos, dúvidas, crenças, afeto, comuns a todos nós.
Sagarana é composto por nove novelas: O burrinho pedrês, A volta do marido pródigo, Sarapalha, Duelo, Minha gente, São Marcos, Corpo fechado, Conversa de bois e A hora e a vez de Augusto Matraga. Todos ambientados no sertão (de Minas Gerais, Bahia e outros locais) principal matéria-prima necessária para o escrever do mestre da literatura modernista.
São estórias de malandragem, superação ou sinestesia animal, vingança, redenção pela religião (o elemento místico e religioso circula com naturalidade em muitas das estórias narradas neste livro e é uma constante na obra roseana), traição e amor. Guimarães Rosa é um artífice da linguagem e, claro, não podemos deixar de mencionar a inovação linguística na forma de narrar, incorporando o léxico do campo, propondo novas expressões (os tão comentados neologismos) e apropriando-se de outras palavras (os arcaísmos e os regionalismos, por exemplo) para ressignificá-las em suas estórias.
O leitor pode, num primeiro momento, estranhar as narrativas e a forma como foram elaboradas, mas Guimarães tem uma escrita muito próxima da oralidade e as novelas ganham um tom de um “causo” sendo contado por alguém a quem lê e o texto flui de uma maneira muito agradável até o final de cada uma das novelas.

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