31 de maio de 2016

Não é não!


Não é não!
Não é recusa. Não é negação!
Quando o não é dito não cabe um mas, um no entanto, nem um porém.
Não cabe culpa em quem diz não, diz para, diz chega.
Responsabiliza-se aquele que infringe, despótico, a quem ignora, arbitrário, aquilo que não se quer mais.
Culpa-se a insistência do algoz, sua falta de empatia, a insensibilidade, a força bruta. Acusa-se quem arranca gemidos de dor, quem desencadeia o choro pela violência.
Vileza, malvadez, ojeriza. Para isto não há um mas, um no entanto, nem um porém. Cabe apenas um ponto final.


23 de maio de 2016

Bode expiatório


Em tempos de crise, é preciso um bode expiatório para depositarmos nossas culpas e expurgá-las convenientemente. Mata-se apenas um da espécie, mesmo que outros também mereçam o sacrifício.
Em tempos de crise, os bodes, como bons rebanhos, são tangidos e conduzidos numa grande massa, para cá e para lá, para cima e para baixo, manobrados de acordo com a vontade de outrem, mesmo que o destino de tal caminhada seja o próprio abate ou a imolação do próximo.
Em tempos de crise, alguns grupos de bodes protestam mais e balem o quanto podem, irracionalmente, como que possuídos por algum Belzebu, proferindo palavras de ordem, de ódio, saudosos de um tempo que, na verdade, não haverá mais.
Em tempos de crise, que sangrem apenas um bode, pois assim não comentamos sobre os outros que, ironicamente, são culpados e permanecem inatingíveis, afinal a responsabilidade é somente daquele único que caiu e tingiu o chão de rubro. Logo em seguida assumem a liderança lobos que nomeiam raposas que convocam ratos e mais uma corja de insetos como assessores. Alguns bodes comemoram, outros revoltam-se e o estado das coisas permanece o mesmo. Para ambos...
Muitos bodes resistem, insistem, tentam convencer os seus semelhantes do contrário, o mal está feito e é uma tarefa quase inglória lutar. Quase, mas não impossível... 
Um bode bale num reconhecível vibrato: Será? Será? Será?
Essa historinha pode ser contada com bodes, carneiros, bois e outros ruminantes como personagens... Menos com tucanos, esses costumam a flanar impunes por aí...


22 de maio de 2016

Na Estante 57: Angústia (Graciliano Ramos)


Livro: Angústia
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Ano: 2011
Páginas: 350

Luís da Silva é um dos grandes protagonistas desenvolvidos por Graciliano Ramos e Angústia, o romance mais atípico do escritor alagoano, pelo conteúdo existencial e psicológico. Funcionário público, pobre, morador de uma puída pensão, Luís acaba fazendo amizade e depois se apaixonando e namorando a vizinha Marina. Conhecemos um pouco de sua rotina, os outros moradores da pensão, os colegas de trabalho e Julião Tavares, rapaz de boa situação financeira, gordo, parnasiano a quem Luís da Silva alimenta um profundo desprezo e irritação. Até que Julião surge como rival e uma ameaça ao seu relacionamento com Marina.
Desta forma o leitor mergulha na mente deste personagem obsessivo, depreciativo de si mesmo, cujas reminiscências da infância e juventude vêm e vão. Por ser um texto de cunho mais psicológico, que se aproxima dos fluxos de consciência que marcaram a literatura da primeira metade do século XX, apesar de não ao ponto do radicalismo de um Joyce ou Proust, mas provavelmente inspirado em outro autor que dedicou muitas páginas aos recônditos obscuros da mente humana, Fiódor Dostoiévski, Graciliano entrega, com Luis da Silva, o seu Raskolnikov (mesmo que ele negue a influência do clássico russo).
Apesar disso, a instabilidade psicológica também leva o texto a certa repetição proposital de ideias, memórias e imagens mentais que pode cansar um leitor mais impaciente. Problema que o próprio Graciliano, em carta ao crítico Antonio Candido, reconhece. Incômodo e perfeccionismo que o escritor alimenta em relação a outros de seus escritos, demonstrando a criticidade com que enxerga a sua obra e que reverbera no seu estilo. Se em Angústia não encontramos, num grau maior, a mesma secura e objetividade de outros romances (sua marca registrada), porém os leitores podem se deparar com o seu trabalho mais emocional e mergulhar nos pensamentos perturbadores e nos tormentos de Luís da Silva.

11 de maio de 2016

Está posto


      Está posto
o caos
está posto
o mal
está morto
e vem algo pior

Está morto
o sonho
está morto
o tal
foi deposto
e vem algo melhor?

Foi deposto
o amor
foi deposto
e o resto
é desgosto
que já sei de cor

É desgosto
o que sinto
é desgosto
e as ideias
esgoto
de algo maior

Esgoto
o que está posto
é esgoto
do morto
deposto
ao redor


1 de maio de 2016

Na Estante 56: Vidas Secas (Graciliano Ramos)


Livro: Vidas Secas
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Mar

Talvez Vidas Secas seja o livro mais celebrado (junto com Angústia) de Graciliano Ramos, principalmente por escapar de maneira magistral dos vícios e clichês de uma trama regionalista, fugindo ao que se convencionou chamar de romance regionalista. Afinal não é apenas a temática da seca que fustiga e oprime Fabiano, Sinha Vitoria e sua família, mas também, a problemática da linguagem que permeia e determina a relação que as personagens possuem entre si e condiciona a interação destas com o meio onde vivem.
Fabiano, Sinha Vitoria, o Menino Mais Velho, o Menino Mais Novo e a cachorra Baleia saem em retirada para escapar da seca e encontram abrigo numa fazenda onde Fabiano começa a trabalhar como vaqueiro para o dono do local. Em cada capítulo conhecemos um pouco das facetas das personagens, inclusive a cachorra Baleia (no famoso episódio homônimo), as dificuldades de Fabiano em se expressar e o quanto isto complica seu relacionamento com as pessoas e consigo, uma vez que não é capaz de dar concretude até mesmo aos próprios pensamentos. Sinha Vitoria e seus desejos de ter uma cama de couro, como a de seu Tomás da Bolandeira. O Menino Mais Novo e a aspiração de ser vaqueiro como o pai, o Menino Mais Velho e as dúvidas (como o significado da palavra inferno, por exemplo) que possui e a relação quase primitiva com a natureza dos entornos da fazenda. A comunicação entre esta família se dá pelo silêncio, por gestos, monossílabos ou grunhidos guturais, aproximando-os da figura animal que todos nós somos, se pensarmos de uma maneira ancestral. Por esse processo de reificação (diferente daquele retratado no Naturalismo), destaca-se Baleia como uma figura humanizada, observando aqueles com quem convive e alimentando esperanças e anseios (um osso a cozinhar, o medo de represálias por parte de Sinha Vitória, um mundo cheio de preás gordos, enormes...). 
Os capítulos são quase que independentes um do outro, o de nome Baleia, por exemplo, fora publicado inicialmente como um conto e incorporado ao romance posteriormente, cuja estrutura circular dá unidade ao enredo, unidade esta atingida por um narrador onisciente que faz uso brilhante do discurso indireto livre, amalgamando suas impressões com as reflexões das personagens que dificilmente chegam a uma conclusão sobre a própria realidade, fora a necessidade de sobreviver às condições adversas (que falam sempre mais alto), pois não desenvolveram uma linguagem mais complexa que lhes permitam codificar e interpretar o mundo ao seu redor. E por não conseguirem sair deste círculo inevitável é que o romance Vidas Secas impacta até hoje.