1 de maio de 2016

Na Estante 56: Vidas Secas (Graciliano Ramos)


Livro: Vidas Secas
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Mar

Talvez Vidas Secas seja o livro mais celebrado (junto com Angústia) de Graciliano Ramos, principalmente por escapar de maneira magistral dos vícios e clichês de uma trama regionalista, fugindo ao que se convencionou chamar de romance regionalista. Afinal não é apenas a temática da seca que fustiga e oprime Fabiano, Sinha Vitoria e sua família, mas também, a problemática da linguagem que permeia e determina a relação que as personagens possuem entre si e condiciona a interação destas com o meio onde vivem.
Fabiano, Sinha Vitoria, o Menino Mais Velho, o Menino Mais Novo e a cachorra Baleia saem em retirada para escapar da seca e encontram abrigo numa fazenda onde Fabiano começa a trabalhar como vaqueiro para o dono do local. Em cada capítulo conhecemos um pouco das facetas das personagens, inclusive a cachorra Baleia (no famoso episódio homônimo), as dificuldades de Fabiano em se expressar e o quanto isto complica seu relacionamento com as pessoas e consigo, uma vez que não é capaz de dar concretude até mesmo aos próprios pensamentos. Sinha Vitoria e seus desejos de ter uma cama de couro, como a de seu Tomás da Bolandeira. O Menino Mais Novo e a aspiração de ser vaqueiro como o pai, o Menino Mais Velho e as dúvidas (como o significado da palavra inferno, por exemplo) que possui e a relação quase primitiva com a natureza dos entornos da fazenda. A comunicação entre esta família se dá pelo silêncio, por gestos, monossílabos ou grunhidos guturais, aproximando-os da figura animal que todos nós somos, se pensarmos de uma maneira ancestral. Por esse processo de reificação (diferente daquele retratado no Naturalismo), destaca-se Baleia como uma figura humanizada, observando aqueles com quem convive e alimentando esperanças e anseios (um osso a cozinhar, o medo de represálias por parte de Sinha Vitória, um mundo cheio de preás gordos, enormes...). 
Os capítulos são quase que independentes um do outro, o de nome Baleia, por exemplo, fora publicado inicialmente como um conto e incorporado ao romance posteriormente, cuja estrutura circular dá unidade ao enredo, unidade esta atingida por um narrador onisciente que faz uso brilhante do discurso indireto livre, amalgamando suas impressões com as reflexões das personagens que dificilmente chegam a uma conclusão sobre a própria realidade, fora a necessidade de sobreviver às condições adversas (que falam sempre mais alto), pois não desenvolveram uma linguagem mais complexa que lhes permitam codificar e interpretar o mundo ao seu redor. E por não conseguirem sair deste círculo inevitável é que o romance Vidas Secas impacta até hoje.

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