27 de junho de 2016

Literal

Minh’alma é literal
Não cabe o transversal
Como ser universal
Para aquilo que só é?
Quero a rigidez do signo
O arbitrário da língua
O significado uno
Desejo a etiqueta-mundo
Nomeá-lo-ei coisa
Coisa literal
E por ser Terra
Coisa transversal
E por ser mundo
Coisa universal


21 de junho de 2016

Na Estante 60: Caetés (Graciliano Ramos)


Livro: Caetés
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Ano: 2013
Páginas: 320

Caetés foi o primeiro romance publicado de Graciliano Ramos. Nas páginas deste livro já é possível entrever, em sua estreia literária, o mestre da escrita de romances que se notabilizou com a publicação de diversas obras importantes. Ao narrar a estória de João Valério que se envolve com Luísa, a esposa de seu patrão, Graciliano, à maneira de um Eça de Queirós, uma de suas influências, faz um retrato da pequena cidade de Palmeira dos Índios, limitada em sua mediocridade, preocupada com a vida alheia e com situações tacanhas e triviais.
O próprio protagonista é um produto desta região, João Valério pretende escrever um romance histórico onde ele relata o famoso episódio do Bispo Sardinha que foi devorado pelos índios caetés, porém o rapaz não consegue avançar mais do que algumas páginas deste trabalho e o que conseguiu desenvolver ainda não é satisfatório.
Caetés é um romance que possui seus defeitos, Graciliano ainda está preso a uma escrita mais detalhista, talvez por uma influência dos textos realistas com os quais cresceu lendo, e por vezes a insistência em retratar a rotina de poucas novidades dos moradores de Palmeiras dos Índios acabou deixando a leitura um pouco mais arrastada, porém a concisão e uma análise um tanto quanto distanciada e objetiva das personagens se impõem em algumas páginas e movem a trama para a frente tirando o enredo do marasmo.
O debut de Graciliano não chega a ser, então, um clássico como Vidas Secas, Angústia ou São Bernardo, no entanto serve como registro de um artista em desenvolvimento e consciente de seu projeto artístico e anuncia aquele que se tornaria um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.


17 de junho de 2016

Ecos de Orlando...


A dor indizível, ignóbil, a dor ignominiosa da morte. A morte que veio pela força da bala, pela violência da bala, pela violência e pelo ódio.

Ódio porque outra palavra alguma classifica a atrocidade, a chacina, a perda de vidas em vão. Agressiva e dura como pedra. Ódio extremo, recalcado, explodido e personificado em morte. Ódio que ceifa vidas, que empilha corpos. O ódio que conduz a humanidade ao primevo, ao ranger dos dentes, à era dos tacapes, fazendo-nos avançar, rápido e ao contrário, as casas da evolução. Para trás, irremediavelmente para trás...

10 de junho de 2016

Na Estante 59: Chapeuzinho Amarelo (Chico Buarque)


Livro: Chapeuzinho Amarelo
Autor: Chico Buarque
Editora: José Olympio
Ano: 2003
Páginas: 35

Textos infantis possuem uma simplicidade que engana a princípio. Por trás desta linguagem mais pueril esconde-se todo um artifício formal que o escritor deve utilizar para que o texto carregue ao mesmo tempo a literariedade e a inteligibilidade para a criança que não deve, de modo algum, ser subestimada. Inclui-se neste tipo de empreitada literária o já clássico livro de Chico Buarque, Chapeuzinho Amarelo que é uma releitura do conto de fadas Chapeuzinho Vermelho, já narrada pelos irmãos Grimm e Charles Perrault, para falar do medo que ronda os pensamentos de toda criança.
Consagrado compositor da Música Popular Brasileira, escritor de romances celebrados pela crítica especializada, Chico Buarque também enveredou pela escrita de livros infantis e Chapeuzinho Amarelo, publicada pela primeira vez em 1979, a obra mais famosa desta sua vertente. Com lúdicas e coloridas ilustrações de Ziraldo, Chapeuzinho Amarelo é a protagonista que nutre um medo de todas as coisas, vivendo assim paralisada pelo receio de algo ruim acontecer-lhe. Até que ela encontra pelo caminho aquilo que mais teme: o lobo. E face a face com a figura que sempre a assustou, mesmo não tendo visto um único lobo em sua vida, faz com que feneça justamente o medo do medo do medo do medo do lobo que a perseguia. Libertação que proporciona a ela viver a infância plenamente. 
Na tessitura desta obra, Chico Buarque brinca com as palavras, invertendo os seus valores semânticos, fazendo trocadilhos e explorando aliterações e assonâncias, o que torna a leitura mais rica e divertida, cada vez que for relida, a olhos adultos mais interessados na exploração da linguagem do compositor e romancista ou a olhos infantis que se deliciarão com a trajetória desta personagem marcante tão próxima a eles.

3 de junho de 2016

Na Estante 58: Ficção e confissão (Antonio Candido)


Livro: Ficção e confissão – Ensaios sobre Graciliano Ramos
Autor: Antonio Candido
Editora: Editora 34
Ano: 1992
Páginas: 112

Ficção e confissão – Ensaios sobre Graciliano Ramos é uma compilação de textos críticos escritos por Antonio Candido sobre a obra de Graciliano Ramos. O leitor deste blog pode ter percebido que o Velho Graça tem sido um escritor recorrente entre os livros analisados na coluna “Na estante” e a leitura dos ensaios do célebre especialista literário ajuda a clarear ainda mais o entendimento a respeito dos trabalhos do autor de Vidas Secas, Angústia e São Bernardo. Primeiramente porque Candido faz uma análise precisa sobre os escritos de Graciliano, muitas vezes se opondo ao que os especialistas consideraram como qualidade ou unanimidade, principalmente no que concerne ao livro Angústia, por exemplo.
Antonio Candido não se rende apenas em elogios formais, mas capta também os “defeitos” que perpassam algumas das estórias produzidas pelo escritor alagoano, defeitos estes que não eclipsaram a qualidade literária dos livros que escreveu. Candido verifica que a obra de Graciliano Ramos se divide entre duas fases, uma ficcional e outra memorialística. Não que uma não carregue características da outra, não são dois momentos estanques na carreira de Graciliano, pois a leitura das obras ditas “de memórias”, carregam um tratamento dos fatos com uso de elementos dos textos narrativos (como narrador, personagens, espaço, tempo etc.) além de agregar informações da vida de Graciliano que também se encontram reveladas, de certa forma, como situações imiscuídas nos enredos de seus textos ficcionais mais conhecidos.
Acaba sendo revelador que, se o leitor quiser, poderá iniciar o contato com a obra graciliana pelos últimos textos que flertam com o autobiográfico (Infância e Memórias do Cárcere) para depois identificá-los nas narrativas redigidas anteriormente, ou vice-versa. Ficção e confissão traz consigo todo o domínio de escrita e o profundo conhecimento do fazer literário já tão disseminados de Antonio Candido, este que é um dos grandes nomes da crítica literária brasileira, ou seja, um gigante escrevendo sobre outro.