5 de julho de 2016

Na Estante 61: O homem duplicado (José Saramago)


Livro: O homem duplicado
Autor: José Saramago
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2008
Páginas: 288

Há muito tempo que li Ensaio sobre a cegueira, uma das obras mais conhecidas de José Saramago, e me recordo que o livro me incomodou e me conquistou bastante. Também tentei naquele tempo, com pouquíssimo sucesso, ler Memorial do convento, leitura abandonada após algumas páginas, porém entendo que ainda faltava-me certa maturidade (ou um pouco mais de repertório) como leitor. Ainda pretendo reler Ensaio sobre a cegueira, não cogito ainda reencontrar as páginas de Memorial do convento, porém o que me levou à leitura de O homem duplicado não foi sequer a fama e a qualidade do único escritor em língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura, mas a necessidade de assistir justamente à sua adaptação para o cinema, aquela com o Jake Gyllenhaal. Ler o livro antes de verificar como ele foi transposto para a telona.
Saramago retoma um assunto clássico da nossa literatura que é o duplo. Dostoievski já o abordou no romance O duplo, Borges também escreveu o conto O Outro e muitos devem se lembrar de William Wilson de Edgar Allan Poe que resgata a quase mesma situação: a de um personagem que encontra um homem semelhante a si. No caso do romance do escritor português este fato misterioso ocorre com o professor de História Tertuliano Máximo Afonso que descobre a existência de um homem idêntico a ele em idade e feições após assistir um filme em sua casa, uma comédia leve recomendada por um colega de trabalho. Surge daí uma verdadeira obsessão para descobrir a identidade desta pessoa, que é um ator em discreta ascensão. Além disso, Tertuliano é um homem divorciado e vive um romance titubeante com uma bancária com quem ele não deseja um maior envolvimento.
Temos a presença também de um narrador onisciente em 3ª pessoa que faz questão de interferir no enredo que está contando para fazer diversas digressões e ironias a respeito da História, da natureza humana ou para observar os rumos das personagens que fazem parte da trama. Além disso, já é uma marca estilística de Saramago fazer o uso de vírgulas ao longo do texto, onde diálogos (alguns deles acontecem entre o protagonista e o “senso comum”, que tenta dissuadir Tertuliano de algumas decisões e propiciam alguns ótimos momentos) e considerações se misturam no parágrafo, recurso que confunde muitos leitores menos afeitos à prosa de Saramago ou que o estão lendo pela primeira vez, mas que não se torna um impeditivo com o correr das páginas (Saramago recomenda que leiam os textos dele em voz alta para que não haja confusão com o uso das vírgulas).
A perplexidade da possível existência de alguém parecido com você (praticamente uma cópia) que pode dar novas possibilidades a sua existência, a possibilidade da troca de identidade ou da perda da própria. Um “eu” sempre em jogo e em risco de esvair-se, desfigurar-se diante de tantas necessidades, diante da prisão de uma vida social (que envolve o trabalho, um relacionamento amoroso, a família, entre tantas coisas) que também contribui com a anulação de si mesmo para que seja ou tenha aquilo que insiste-se em chamar de personalidade, condicionada a tantos fatores subjetivos. 
A prosa de O homem duplicado flerta com este tema, acrescentando mais uma perspectiva ao tema do duplo, que ainda exerce grande fascínio no público literário e ficcional, e possui uma trama interessante e surpreendente com um narrador que muitas vezes rouba a cena da narrativa e torna a leitura ainda mais prazerosa.

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