17 de outubro de 2016

Bob Dylan, Nobel de Literatura, e o que isso tem a ver com o meu pai?


Bob Dylan tem para mim sabor de domingo. Os domingos que o meu pai chegava de manhã com pães e frios e um Diário Popular nas mãos. Ao som do cantor americano, ele lia as notícias do jornal enquanto eu pegava o suplemento sobre televisão e inteirava-me sobre os artistas da telinha e os resumos dos próximos capítulos das novelas globais. A trilha sonora também era variada com outros artistas, mas Bob Dylan era uma constante dominical e semanal. Tenho certeza que o hábito da leitura nasceu em mim pela influência destas tardes de domingo, vendo o exemplo do meu pai tão compenetrado com o seu jornal. Infelizmente o gosto pelas canções de Bob Dylan também não foi hereditário. Preferi outros cantores e cantoras ao renomado artista e, agora, Prêmio Nobel de Literatura. Diferente de muita gente, o prêmio não me surpreendeu. O nome dele sempre corria por fora, como possibilidade a não ser descartada e temos que entender a escolha como uma necessidade de renovação do prêmio sueco e expansão do reconhecimento artístico e crítico para além dos gêneros literários mais tradicionais como a poesia, conto e romance. O Nobel de 2015 para a Svetlana Alexijevich, jornalista e autora de não ficção, já dava indícios desta busca por mudança e variabilidade dos membros que concedem esta láurea. E serei egoísta ao ponto de achar que o Nobel de Literatura só foi dado ao Bob Dylan para agradar o meu pai, grande fã, diria até fanático, deste clássico do cancioneiro popular mundial. Nós temos o sério preconceito e a péssima mania de achar que o poder de fruição de artistas inovadores da música, cientes das múltiplas leituras que a linguagem de suas letras propicia, só é capaz de atingir pessoas com formação completa, superior, eruditos, intelectuais, pra quem tem o elitizado “bom gosto”. Meu pai não possui o ensino básico completo e nas conversas sobre a adolescência dele, relatava-me quando escutou Bob Dylan pela primeira vez por acaso, numa rádio à noite antes de dormir, após um duro dia de trabalho (sim, adolescentes trabalhavam para ganhar o sustento), fato que o fez perder o sono e o impeliu a correr no dia seguinte, após o expediente, para uma loja de discos do centro de São Paulo e procurar por um dos álbuns dele. Acredito que este tenha sido um momento crucial na vida do Sr. Alberto, imagino a obra dylaniana intrínseca aos dias do meu pai, indispensável e inseparável, um alento para quem sempre teve uma vida dura, música propiciadora do conforto e “da viagem” que só sentimos ao som de uma canção que fale ao nosso pensamento e ao nosso coração. A vida do meu pai foi muitas vezes suavizada pelos acordes do violão, a poesia das letras e pelo timbre peculiar de Bob Dylan. Talvez o Nobel foi menos para o próprio artista e mais para os fãs dele, tão beneficiados em suas existências pela genialidade dele. Ou sejamos práticos: O Prêmio Nobel de Literatura dado para Bob Dylan, na verdade, foi para deixar o meu pai feliz e ponto!

Um comentário:

  1. Nossa, que texto maravilhoso, gosto muito de ler coisas relacionadas a infância e boas lembranças das pessoas...

    Sobre a premiação eu fiquei tão imparcial que até tentei escrever algo para o meu blog, mas nada consegui, porque realmente não sei o que pensar!

    Acabei de conhecer seu blog e adorei, estou seguindo!

    Espero que seu pai tenha ficado bem feliz!

    Visite meu blog: Estandy Books

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