2 de outubro de 2016

Na Estante 64: Histórias extraordinárias (Edgar Allan Poe)


Livro: Histórias extraordinárias
Autor: Edgar Allan Poe
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2008
Páginas: 272


Edgar Allan Poe é um daqueles escritores difíceis de classificar. Poeta, crítico literário, contista. Todas estas funções exercidas por ele de forma brilhante. Os contos de Histórias extraordinárias surpreendem pela originalidade dos temas e o estranhamento das personagens que refletem as mesmas obsessões que o escritor americano teve em vida. Obras-primas como O gato preto e O coração delator (o peso da culpa de um crime manifestando-se por meios pouco ortodoxos), O poço e o pêndulo (o requinte da crueldade pela tortura e a proximidade da morte), A carta roubada (trama pioneira de investigação que fez de Poe o pai da literatura policial), A máscara da morte rubra (o inevitável destino que atinge a todos, independente da posição social, que nem o encerrar-se num castelo impede que se conclua), A queda da casa de Usher (um conto que flerta com aquilo que Fernando Pessoa, através do heterônimo Álvaro de Campos, definiu como o "horror pelo desconhecido"), William Wilson (o duplo como uma sombra a ameaçar as maquinações do protagonista, mas não serão os dois lados de uma mesma moeda?), O homem na multidão (a solidão das grandes metrópoles, Poe captando como poucos o espírito da modernidade urbana) possuem, em sua estrutura, o mórbido, o obscuro, o sobrenatural, o mistério, o terror como elementos constantes. Além disso, há uma investigação psicológica das personagens que flertam com o insano e o doentio, lança o leitor para dentro dos seus delírios e a tentativa de racionalização que eles passam diante do inominável. Por isso Poe ainda consegue ser tão relevante nos dias de hoje, sombrios tempos em que o absurdo da realidade nos deixam tão estupefatos quanto à ficção, onde pessoas revelam o que possuem de pior. Era com este pior do ser humano que Poe trabalhava e fazia questão de ressaltar nos seus escritos, o caráter abjeto do indivíduo, que apenas espera o momento certo de vir à tona. Desta forma Poe, um artista cuja obra se entrelaça à sua biografia, inscreveu o próprio nome na história da literatura mundial gozando, na posteridade, de um prestígio que infelizmente não conseguiu quando vivo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário