23 de outubro de 2016

Na Estante 66: Se um viajante numa noite de inverno (Italo Calvino)


Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, é um livro para leitores. Escrevendo desta forma parece um enunciado redundante. Todo livro visa um leitor. No caso desse romance do escritor italiano visa um tipo leitor consciente do processo de produção e recepção de uma obra literária. Podemos dizer que Se um viajante numa noite de inverno é um romance metalinguístico e a leitura desta obra resultará ainda mais prazerosa para aqueles interessados e apaixonados pela linguagem como recurso criativo, sendo a literatura uma de suas maiores e longevas representações. Italo Calvino cria uma espécie de boneca russa, com uma narrativa dentro da outra que esconde mais outra e mais uma e mais uma. Colocando no centro de sua trama um leitor e uma leitora, tirando-os de uma posição passiva (daquela de receptor da mensagem por meio do livro) e tornando-os agentes no enredo intrincado e divertido, quase como um jogo ou enigma a ser decifrado. Um livro, de título homônimo ao que você, leitor real, terá em mãos, que possui um erro de impressão e impede a continuidade da leitura do mesmo aproxima dois leitores, um homem e uma mulher, que partem em busca da verdadeira história do livro que compraram que os levam a encontrar outros livros numa procura quase que sem fim envolvendo autores de países distantes e línguas pouco acessíveis e até uma bem-vinda teoria da conspiração. Calvino intercala o “drama” dos leitores protagonistas com as narrativas que eles vão encontrando em sua jornada, cada um com um estilo ou gênero diferente, o policial, o de mistério, o drama existencial, o erótico, o de guerra e etc, cada um interessante ao seu modo. Se um viajante numa noite de inverno acaba sendo uma declaração de amor à literatura, seja a clássica, a clichê ou a experimental (onde este livro acaba se encaixando), amor à bibliofilia, ao objeto livro e o hábito que tira a todos os leitores de sua própria realidade e os inserem noutras imaginárias que refletem, ainda assim, o mundo que os circundam, ajudando-os a compreendê-lo melhor ainda. Fica aqui o convite à leitura com um trecho do primeiro capítulo. Duvido que você, leitor, resistirá em não continuar:

Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: “Não, não quero ver televisão!”. Se não ouvirem, levante a voz: “Estou lendo! Não quero ser perturbado!”. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: “Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!”. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.”

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