27 de dezembro de 2016

O ano em que vivemos em perigo


Não há nada ruim que não possa piorar. Às vezes o senso comum traz algumas verdades irrefutáveis. Do modo como as coisas se encaminharam em 2016 é melhor que esperemos o apocalipse para o ano que vai nascer. E se sobrevivemos ao quase expirado 2016 temos razões de sobra para agradecer (a Deus, a Zeus, ao seu Orixá) o fato de termos chegado até aqui ou motivos suficientes para encarar o que está por vir com enorme receio? Que o diga a nossa frágil democracia, que o confirme (através de leis cada vez mais absurdas) a nossa Câmara e o nosso Senado, que o sancione o presidente sem nunca ter sido, o ilegítimo, aquele que você sabe quem, cuja alcunha começa com “Fora” e termina com “Temer”.
Há quem diga o clássico e clichê: “Agradeça que você está vivo até agora” ou venha com a estranha compensação: “você deveria estar feliz, pois tem casa, comida e roupa lavada enquanto tantas pessoas vivem na miséria!”. A afirmação certamente não me comove, não é motivo de conforto espiritual saber que tem gente em situação pior do que a minha, passando fome ou outras necessidades... Claro, não podemos ser ingratos a tudo que possuímos e conquistamos, mas paira uma nuvem densa, um senso de preservação disto que é nosso, muitas vezes daquilo que nos propicia um conforto mais interior do que material, quando ficamos diante de extremos como a crise dos refugiados, a guerra civil dificilmente velada e enfrentada nas grandes cidades, o sistema de apartação cada vez mais grave das minorias, a ascensão de políticos com ideias radicais e desumanas e a adesão de uma grande parte da população que leva tais líderes ao poder e proliferam tais chorumes por onde passam, nas conversas informais, nas redes sociais, no seio familiar. 
Vivemos em constante perigo em 2016, uma situação de instabilidade poucas vezes vista e, ao mesmo tempo, um sentimento horrível de impotência diante da imutabilidade das coisas ou da impossibilidade do frear o curso da história que, inevitavelmente, caminha para uma nova crise. E não há fenômeno natural para culpar desta vez, o maior problema da humanidade (e a sua única solução também) é apenas aquilo que a compõe essencialmente: o próprio homem.

19 de dezembro de 2016

Na Estante 67: Os Lusíadas (Luís de Camões)


Livro: Os Lusíadas
Autor: Luís de Camões
Editora: Abril
Ano: 2010
Páginas: 448

Ao fazermos a leitura de Os Lusíadas, clássico português de Luís Vaz de Camões, empreendemos uma jornada cheia de obstáculos tais quais os enfrentados por Vasco da Gama em sua viagem rumo às Índias no épico lusitano. Obstáculo do tempo: o poema data do século XVI, época das grandes navegações. Obstáculo da linguagem: por pertencer a um período antigo, os termos empregados por Camões em sua obra necessitam em boa parte do auxílio de um dicionário. Obstáculo das referências históricas e cultura clássica: as diversas alusões aos mitos greco-romanos e a personagens célebres da história pregressa de Portugal pode confundir o leitor menos íntimo a estas informações. Considerando todas estas implicações, o que torna Os Lusíadas uma obra imortal e relevante até hoje é o modo como Camões teceu seu trabalho monumental. Sabendo que a epopeia visa à expressão das conquistas de uma nação e tem na figura do herói aquele que carrega em si as qualidades e a coragem de um povo, fica evidente que Camões tinha um fato ainda muito recente na história portuguesa (a descoberta da rota para as Índias) e também um herói incipiente (Vasco da Gama) e, com tão pouco, teve que valer-se não somente de seu talento de poeta assim como de sua habilidade romanesca para entrelaçar história, mitologia e estilística num trabalho só.
A trama de Os Lusíadas divide-se em três planos: o da viagem em si, liderada por Vasco da Gama; o plano mitológico centralizado no antagonismo de Baco e na interseção de Vênus em favor dos portugueses; o plano histórico, onde os fatos mais importantes da nação de D. Sebastião são recuperados ao longo do poema. Os dois últimos planos muitas vezes gerando maior interesse que a própria viagem, uma vez liderada por Vasco da Gama, um herói que, comparado a Aquiles (de A Ilíada), Ulisses (de A Odisseia) e Enéas (da Eneida), apenas para ficarmos entre os grandes heróis épicos da cultura clássica, pouco age e é constantemente eclipsado por outros personagens da epopeia camoniana.
Mas o protagonista real de Os Lusíadas é justamente a linguagem empregada por Camões, a maneira como o escritor português transformou todos esses elementos em poesia. Longe de querer fazer uma análise formal (já é de conhecimento de boa parte que o poema se estrutura em oitavas com versos decassílabos), o destaque é a carga dramática das situações retratadas, o lirismo e a inventividade dos versos repletos de hipérbatos. Passagens como a morte de Inês de Castro, do Gigante Adamastor, da Ilha dos Amores são sempre lembradas, porém é na fala do Velho do Restelo que Camões deixa entrever que a sua homenagem aos portugueses e as grandes conquistas de sua nação não está isenta de críticas, julgando a cobiça e ambição que levaram a tais empreendimentos. Sinal de coragem de Luís Vaz de Camões em não fazer de Os Lusíadas, um produto meramente ufanista e cego ao imperialismo vigente. Mostrar o homem pleno de suas capacidades de realizar as conquistas e os avanços que deseja, mas cujo afã pode levar à deturpação dos valores humanistas que regeram o pensamento daquela época.