16 de abril de 2017

Nebulosidade


Está tudo nebuloso, impreciso. Um silêncio incomodante, uma paz quando tudo deveria ser caótico. Não entendo a passividade, aguardo o estopim, a faísca necessária para o início do grande incêndio, aquele que porá tudo abaixo, aquele que reduzirá as coisas à cinzas. Tudo que acreditamos, pó. Aquilo que está posto, gás carbônico. A realidade que vivemos, passado. Enquanto isso encontram maneiras de sabotarmo-nos, o golpe preciso e mortal. A rasteira invisível a qual não enxergamos quem, só percebemo-nos em queda. Ou seria suspensão? Ou seria apenas impressão? Sonho? A existência assemelhando-se a um pesadelo. Os monstros do imaginário popular metamorfoseados em seres legislativos e executivos a nos forçar o medo, a nos operar lobotomia, a nos empurrar um prato frio (como vingança. De quê? O que fizemos? Que culpa temos nós?) e podre. Engolindo a seco tudo que se encerra nesse pacote. Anseio pela revolta, mas eu mesmo encontro-me refém da situação, mobilizado pelos afazeres, pelas obrigações, pelos débitos na conta corrente. Tentando caminhar e persistir em meio a tanta névoa, a visão turvada pela neblina. Nebulosidade que me impede (e aos meus também) enxergar além, vislumbrar uma réstia que seja de luz, um fio esperançoso, a trazer luminosidade, a trazer calor, a esquentar os ânimos a tal ponto que, quiçá, uma combustão irrefreável se inicie, enfim, e as chamas se espalhem rapidamente, como num mato seco...

2 de abril de 2017

Na Estante 72: Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)



Livro: Memórias póstumas de Brás Cubas
Autor: Machado de Assis
Editora: Ática
Ano: 2002
Páginas: 206

A literatura brasileira não seria a mesma após Memórias Póstumas de Brás Cubas, o livro que inaugurou o Realismo-Naturalismo em nosso país. Dar a voz a um defunto-autor ou autor-defunto não foi a única ousadia do mestre Machado de Assis. O autor de Dom Casmurro poderia muito bem ter caído nas fáceis convenções da escola realista e naturalista vigentes na época, ao contrário, seus trabalhos surgem num patamar acima do que foi produzido pelos seus contemporâneos como Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha e Raul Pompeia.
Seu texto nunca recorreu à simples teorização determinista, positivista. Antes de declamar certezas em sua prosa, Machado de Assis prefere a desconfiança e a ironia, o foco é o ser humano no que ele tem de mais contraditório.
Um morto narrando a vida pregressa o faz despir-se de quaisquer compromissos e receios com aqueles que conviveram com ele e Brás Cubas não poupa nem a si próprio nas páginas que tece no além. Criança peralta, jovem esbanjador e preguiçoso, a quem o pai previa um destino glorioso (na Igreja ou na Política), estudante pouco brilhante, adulto afeito à riqueza da família.
Além das inovações formais (o capítulo LV – O velho diálogo de Adão e Eva), momentos oníricos (Capítulo VII – O delírio), Memórias Póstumas de Brás Cubas tem nas digressões bem humoradas a sua principal característica (estilo que permanecerá nos romances posteriores do Bruxo do Cosme Velho) e o diálogo quase frequente do narrador em primeira pessoa com o leitor, aquele que poderia estranhar ou se chocar com algumas das observações feitas ali no romance.
E não podemos esquecer, claro, das personagens. Além do próprio Brás Cubas, temos a prostituta Marcela, primeira grande paixão do protagonista (“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”), Quincas Borba, o louco filósofo e sua crença no Humanistismo (teoria que é uma sátira velada aos ideais naturalistas) e Virgília, que surge como o principal interesse amoroso de Brás Cubas e com quem ela mantém um relacionamento extraconjugal (“Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera.”), mais uma que entra para a galeria das grandes personagens femininas machadianas.
No romance, que mistura em seu subtexto uma observação das relações sociais do Brasil no século XIX (o Brasil escravocrata, o Brasil Império), Machado de Assis aperfeiçoa com primor o projeto de uma literatura brasileira, com personalidade e voz própria, iniciada no Romantismo (principalmente com a obra de José de Alencar), abrindo caminho para tornar-se o nosso autor mais representativo.


26 de março de 2017

Poema espinhoso



cavuco
futuco
rompo
abcessos
mancho
epidermes
expilo
protuberâncias
amareladas
desbotadas
botões de
apertar
espremer
sinal
gritante
na cútis
agredida
por ecos
adolescentes
apesar da
balzaquiana
idade
que nem
flor viça é
é flor baça
sem graça
tez não
uniforme
não conforme
ao padrão
homogêneo
se me aguarda
retrato de
Dorian Gray
aflige-me
a face
Doriana
oleosa
como a
margarina
no porão
deve ser
o rosto
límpido
enquanto
aqui o
exato
oposto
antiestético
espinhoso


19 de março de 2017

Na Estante 71: A bolsa amarela (Lygia Bojunga)


Livro: A bolsa amarela
Autor: Lygia Bojunga
Editora: Casa Lygia Bojunga
Ano: 2013
Páginas: 135

Uma bolsa que cabe tudo, o mundo, dentro dela cabem todas as vontades da protagonista, protagonista que almeja aquilo que é oposto dela ou que é esperado ao gênero o qual ela pertence. Raquel quer ser adulta, ser menino, pois eles têm mais privilégios do que as meninas, ela deseja ser escritora, mas suas histórias não são bem recebidas ou compreendidas pelo grupo familiar.
Ao ganhar de presente uma bolsa amarela, grande demais para o tamanho de Raquel, mas o suficiente para carregar os seus sonhos e suportar o peso de sua imaginação. Ela convive com personagens como um guarda-chuva, um alfinete, um galo oriundo de uma das estórias que ela criou. Ao mesmo tempo convive com a mãe, o pai e os irmãos, de origem pobre, e suporta a caridade de sua tia que tem uma situação financeira melhor e se desfaz das muitas coisas que ela compra e que não usa mais, entregando-as para a família de Raquel.
Em A bolsa amarela, temos uma protagonista criativa, escritora, dona de si e de suas opiniões, com uma imaginação em franco crescimento, que percebe o mundo ao redor e projetando o seu próprio universo para atenuar a sua realidade e sua condição. O livro utiliza-se de uma linguagem coloquial com termos como “Aí”, “tô”, interjeições e outros recursos, etc. e reforça a proximidade com a oralidade das crianças da mesma idade da protagonista.
Passados 40 anos da sua publicação, A bolsa amarela dialoga com temas urgentes da atualidade como a questão de gênero e o feminismo, além de, como é comum em grande parte da produção literária infanto-juvenil, exaltar a importância da leitura e da escrita como formas de libertação e de afirmação no mundo.

5 de março de 2017

Multas linguísticas

       As pessoas têm uma ideia equivocada de que todo profissional formado em Letras é alguém que vai monitorar a fala do mundo inteiro e encontrar os erros existentes nela, como se a língua oficial do nosso país se resumisse a uma questão gramatical-ortográfica.
E sempre quando descobrem que você trabalha nessa maravilhosa área das linguagens, surgem as dúvidas mais corriqueiras: “Quando eu uso onde/aonde?”, “E os porquês?”, “Tal palavra é com s ou ss?” e assim por diante. Isso quando não aparecem comentários do tipo: “Vamos falar direito que temos um professor de português ao nosso lado.”, “Ele já deve ter notado um monte de erros no que a gente falou...”, como se, antes de tudo, nós fossemos fiscais da fala alheia a pontuar as inadequações. Não que nós, de vez em quando, não reparemos os momentos em que alguma frase foge daquilo que se estabeleceu como norma-padrão, mas não saímos com um bloquinho de anotações distribuindo multas linguísticas por aí.
O que a população ainda não entende é que existem vários modos de fazer o uso da nossa língua materna, depende da situação (e o grau de formalidade e informalidade que ela vai exigir) em que você se encontra. E que ela não se restringe apenas à norma-culta de comunicação (tanto na oralidade quanto na escrita, apesar de alguns puristas desejarem assim). A língua portuguesa pode ser até uma (no nome), porém são muitas as ditas pelo mundo afora.
Nós, profissionais de Letras, cometemos os nossos errinhos (acredito até que o Bechara, Celso Cunha e o Pasquale também) e, se somos exigentes, é apenas com a própria fala ou escrita. Não dá para ser 100% o tempo todo e nem carregar uma gramática e/ou um dicionário inteiro na cabeça. A memória falha, o esquecimento vem...
O que importa então é a expressividade da língua e também a capacidade e responsabilidade de comunicar uma informação para evitar mal entendidos. Pense sempre onde você está (numa palestra, num boteco, numa reunião da empresa?) e quem é o seu interlocutor (o chefe, o melhor amigo, um recrutador de RH?) e, se for necessário, procure utilizar o máximo daquilo que você conhece sobre a língua em sua forma padrão.
Já a escrita possui uma rigidez maior e nela, na maioria das vezes, você terá que redigir um texto seguindo as normas ortográficas, além de se ocupar com a coesão e a coerência de suas ideias e outros aspectos textuais. No texto escrito um “erro” não tem como ser consertado e fica registrado aos olhos do receptor da mensagem (a não ser que ocorra uma revisão rigorosa anteriormente).
Então, caros leitores, relaxem conosco e consigo mesmos. Para evitar qualquer constrangimento, não custa nada recorrer a um velho hábito que ajuda bastante a melhorar nosso convívio com a complexa língua portuguesa e a dominá-la, além de ampliar o conhecimento de mundo e das pessoas ao redor: o hábito da leitura. Aposto que as dúvidas e o receio de usá-la de uma maneira plena vão diminuir consideravelmente a partir do contato frequente com os livros.

19 de fevereiro de 2017

Na Estante 70: O retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)


Livro: O retrato de Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Editora: Landmark
Ano: 2012
Páginas: 413

Oscar Wilde poderia ter escrito apenas este romance que já teria seu nome garantido entre os grandes da língua inglesa e universal. Autor de contos, peças teatrais e outros gêneros, Wilde é um sinônimo de ironia fina e os ideais estéticos que pregava em sua literatura estão todos sedimentados e resumidos na sua obra mais famosa: O retrato de Dorian Gray.
Ao ver-se no retrato do título, o jovem protagonista Dorian Gray, deseja que a beleza, da mesma forma que imortalizada na pintura feita por seu amigo e admirador Basil Hallward, pudesse ser indelével nele próprio. Instigado e influenciado pela amizade com o excêntrico Lorde Henry Wotton, entrega-se aos prazeres mundanos e hedonistas e despe-se de qualquer postura ética ou empática em relação às pessoas com quem convive ou nutre interesse. Concomitantemente, enquanto a sua aparência mantém-se jovem, vivaz e intacta, de forma inexplicável, a imagem do quadro, que ele passa a esconder da vista de outras pessoas, vai se deteriorando, quase que numa representação da putrefação de sua alma.
Oscar Wilde tem total domínio do enredo encadeando as ações que, num crescente, revelam o lento ocaso do protagonista, dando a Lorde Henry, quase que um alter ego de Wilde, os diálogos mais ácidos e não menos verdadeiros que denunciam a sociedade inglesa conservadora de sua época. A mesma que seria responsável pela decadência de Oscar Wilde, condenando-o e execrando-o, após a prisão devido às práticas homossexuais (proibidas por lei até então, o homossexualismo é uma temática que sutilmente é abordada dentro deste livro e gerou censura na época da publicação). 
Wilde questiona sem moralismos o valor da beleza, a hipocrisia da sociedade que se esconde por trás do superficial e do vazio de seus pensamentos. Por este motivo, O retrato de Dorian Gray acaba sendo uma leitura intrigante e também prazerosa pela sinceridade com que foi desenvolvido e a eletricidade que ainda emana de suas páginas.

12 de fevereiro de 2017

Era apenas um almoço de domingo


Era apenas um almoço de domingo.
Chegaram quase todos ao seu horário com as dificuldades que podiam enfrentar naquele dia: a ressaca, a quase inanição do transporte público, a preguiça, o sono, a ausência de alguém que não poderia vir. Nada de novo até então. Conversas banais, amenidades, trocadilhos e um delicioso almoço à espera. Comeu-se rápida e fartamente, o barulho do contato dos talheres no prato quebrado por conversas esparsas ou vice-versa. Olhares trocados evidenciando a mente que inquiria: “O que farei agora?”, “O que dizer?”, “Qual história engraçada contar?”. Era um silêncio que de início poderia ser constrangedor, mas eloquente na dinâmica daquelas relações amistosas ali. Como quebrar a atmosfera silenciosa num dia tão contagiado pelo mormaço? Filme? Um filme para compensar tamanha quietude. Foram à sala, escoraram-se no sofá, no torpor do pós-almoço. Mal o filme iniciara, o primeiro do grupo sucumbiu e deixou-se levar pelo ir e vir do sono irreprimível, percebeu que outra pessoa também entregara-se aquilo que parecia maior, onipotente. O terceiro também se omitia em silêncio e os três ficaram ali no sono entrecortado pela obra cinematográfica, pontuado pelas preocupações que ocupavam os seus pensamentos já há muito tempo: a iminente volta ao trabalho, conflitos amorosos, ao vazio daquele dia, a luta contra o enjoo, a consciência ainda no torcer-se de ter causado uma péssima impressão a alguém no dia interior, as coisas que procuraria fazer durante a viagem para outro estado, qual conduta escolher após tantos anos distante, longo intervalo não suficiente para acumular saudade do local a ser visitado. Os três dormiram e, ao acordarem, olharam-se compungidos e entenderam-se em seu cansaço, aquele cansaço que extrapola o peso do corpo, massacra mais que a uma surra, compreenderam mutuamente a possibilidade da não resolução fácil dos problemas diários que enfrentavam, mas viram-se cúmplices, parceiros no silêncio daquele dia. O entendimento que não encontrava palavra fácil, apesar de algumas reprimidas na cabeça, apesar de outras entaladas na garganta. Não precisavam de conversas ininterruptas e em volume alto pelo menos não naquele domingo. O estar junto já era suficiente.

16 de janeiro de 2017

Na Estante 69: Terras de sombras (J. M. Coetzee)


Livro: Terras de Sombras
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Best Seller
Ano: 1997
Páginas: 152

Terras de sombras ou Dusklands é o romance de estreia do escritor sul-africano J. M. Coetzee e divide-se em duas narrativas independentes: “Projeto Vietnã” e “A narrativa de Jacobus Coetzee”.
A primeira, ambientada no período da Guerra do Vietnã traz o narrador-protagonista Eugene Dawn responsável por elaborar um ensaio profundo sobre os serviços de propaganda feitos no Vietnã. Ao invés de colocar o campo de batalha e suas atrocidades como cenário (ou assumir o ponto de vista de soldados presentes neste conflito), Coetzee prefere lançar o olhar sobre aqueles que encontram-se nos bastidores do evento bélico: os burocratas. Ao mesmo tempo em que conhecemos o material trabalhado por Eugene, também nos deparamos com sua crise profissional, afinal precisa fazer alterações no seu ensaio já que parte dele não agradar ao seu superior chamado Coetzee. Além disso, Eugene passa por problemas conjugais e familiares que conduzem o personagem a uma atitude extrema.
Já em “A narrativa de Jacobus Coetzee” têm-se um relato de um provável antepassado de Coetzee (não podemos confiar na veracidade e na recorrência desse sobrenome ao longo desta obra e de outros trabalhos escritos por J. M. Coetzee) datado do século XVIII. Jacobus Coetzee é um colonizador bôer fazendo uma travessia de gado pelo território Namaqua, auxiliado pelos hotentotes (nativos locais) e acaba entrando em atrito com uma tribo com quem trava contato. Permeia a narrativa o julgamento e o pré-julgamento do colonizador europeu diante daqueles que habitavam a África do Sul (o continente africano como um todo também), vistos como bárbaros, preguiçosos, inferiores entre outras características depreciativas.
Coetzee (o escritor) coloca em cheque as noções vazias do que é civilização, aquela apregoada pelo europeu que invadiu diversos países, destruiu culturas, explorou colônias, colocou os nativos numa posição marginalizada. A noção de barbárie muda drasticamente quando posta em uma nova perspectiva menos arrogante e pretensiosa. A visão colonizadora e imperialista atravessou os séculos e ganha novos contornos e nuances que resultam em mais conflitos, como o ocaso da Guerra do Vietnã.
O autor de Desonra sabiamente faz um paralelo entre passado e presente quando o pensamento humano contaminado pelo eurocentrismo ainda é permanente e criou raízes no senso comum. A história se repete e testemunhamos diversos países poderosos do mundo inteiro tentando conter a dita barbárie e usando-a como principal arma. Nesta lógica quem seria o selvagem então?

11 de janeiro de 2017

Da problematização das desconstruções, ou vice-versa


Tudo é motivo para problematizar, logo agora que alguém estava se autodesconstruindo de tantas coisas. A pessoa mal acompanha a polêmica da última semana e já entra à baila da discussão um novo assunto não menos cercado de controvérsia. E aquela opinião que estava quase formada, volta a ter os alicerces abalados e cai por terra.
O Facebook virou o palco das opiniões, o mundo inteiro é especialista de qualquer tema, todos querem dar o seu pitaco a respeito das mais variadas situações. E se o debate é aprofundado por alguém (em postagens enormes, os chamados “textões”) imediatamente é refutado por comentários lacônicos do tipo “É o que acho”, “Não concordo”, “O perfil é meu e escrevo que eu quiser”, isso quando não descamba para o baixo calão.
            O grande impasse é justamente as pessoas encararem o espaço das redes sociais, que deveria propiciar um diálogo saudável a respeito das preocupações que circulam na nossa sociedade, como um imenso campo de batalha digital, onde cada indivíduo disputa, pela via da bala linguística, das armas verbais, dos emojis irados, um pouco do território no pensamento alheio.
         Ao estar diante de tantas convicções fica difícil para o leitor desconstruir as suas próprias, umas vez que essas convicções propagadas na rede são unilaterais e não permitem abertura para o diferente. O que era para ser plural tornou-se idiossincrático.
E as intenções de convencimentos e as tentativas de comunicar algo esboroam-se à primeira lufada de ânimos inflados, vão tudo por água abaixo...
       Surge daí a dúvida quase hamletiana: “problematizar ou não problematizar, eis a questão”. “Desconstruir-se ou não?”.
Vale a pena apertar o gatilho do revólver das discussões para ver quão longe a bala vai chegar ou qual estrago causará? E o quanto as pessoas estão dispostas a abrirem-se a este tiro que pode nem chegar perto, passar de raspão ou atingir à queima-roupa, desconstruindo assim desta forma? 
Uma coisa não independe da outra, problematização e desconstrução são complementares neste caso. É tudo um caso de comunicação, bem ou mal sucedida (a maneira como o emissor passa a mensagem e o modo do receptor a compreender). E comunicação, na atual conjuntura mundial, é o que mais falta entre nós.

2 de janeiro de 2017

Na Estante 68: As meninas (Lygia Fagundes Telles)


Livro: As meninas
Autor: Lygia Fagundes Telles
Editora: MEDIAfashion
Ano: 2012
Páginas: 320

Uma das correntes da crítica literária é a análise formal do texto, livre das informações do contexto histórico e de outras correntes do pensamento humano, influenciada pelo formalismo russo e o new criticism. Ao se fazer a leitura de As meninas, de Lygia Fagundes Telles, um dos principais problemas é não colocá-lo em perspectiva com o momento em que foi lançado: os anos de chumbo da ditadura militar brasileira.
Lorena, Ana Clara e Lia, um trio de protagonistas tão díspares cujas vozes, pensamentos e conversas são amalgamados na prosa de Lygia, num uso acertado do discurso indireto livre das narradoras autodiegéticas, num inconstante fluxo de consciência. A primeira, uma estudante de Direito, às voltas com um romance fracassado com um homem mais velho (chamado por ela pelas iniciais M.N.) e casado, ela vive encerrada no pensionato onde está hospedada e dedicada aos estudos cercada de seus discos e livros e da recordação da morte do irmão mais novo. A segunda, uma modelo viciada em heroína dividida entre um relacionamento amoroso junkie com um traficante e um casamento com um homem rico (além das memórias de sua infância sofrida e repleta de abusos). A terceira, uma estudante que veio da Bahia e largou a faculdade para dedicar-se à guerrilha revolucionária.
É por esta última personagem que o livro traz à cena literária os espinhos da ditadura militar e também a utópica luta dos grupos revolucionários de esquerda, nesse caso As meninas cutuca um vespeiro em tempos cheios de censura e conservadorismo, além de esmiuçar de maneira aberta e inédita a alma feminina. 
Lygia alterna os pontos de vistas, põe em seu texto as expectativas e frustrações destas três garotas que representam a classe média da época e a juventude de seu tempo e disseca as inquietações e medos de personagens que, apesar de enfrentarem os ardores da vida adulta, com tudo o que elas têm de direito (sexo, drogas, ideologias, famílias disfuncionais, etc.), ainda não deixaram de serem as meninas do título quanto às esperanças e ilusões que nutrem.
As meninas foi publicado em 1973 e quando alguns especialistas classificam de corajosa a atitude de Lygia Fagundes Telles em escrever semelhante obra num período tão conturbado esquecem que a escritora é uma artista que sempre preferiu o risco ao invés de recorrer à soluções mais simplórias em sua literatura. A coragem já estava intrínseca na escrita dela e é evidente nas linhas deste belíssimo romance.