19 de fevereiro de 2017

Na Estante 70: O retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)


Livro: O retrato de Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Editora: Landmark
Ano: 2012
Páginas: 413

Oscar Wilde poderia ter escrito apenas este romance que já teria seu nome garantido entre os grandes da língua inglesa e universal. Autor de contos, peças teatrais e outros gêneros, Wilde é um sinônimo de ironia fina e os ideais estéticos que pregava em sua literatura estão todos sedimentados e resumidos na sua obra mais famosa: O retrato de Dorian Gray.
Ao ver-se no retrato do título, o jovem protagonista Dorian Gray, deseja que a beleza, da mesma forma que imortalizada na pintura feita por seu amigo e admirador Basil Hallward, pudesse ser indelével nele próprio. Instigado e influenciado pela amizade com o excêntrico Lorde Henry Wotton, entrega-se aos prazeres mundanos e hedonistas e despe-se de qualquer postura ética ou empática em relação às pessoas com quem convive ou nutre interesse. Concomitantemente, enquanto a sua aparência mantém-se jovem, vivaz e intacta, de forma inexplicável, a imagem do quadro, que ele passa a esconder da vista de outras pessoas, vai se deteriorando, quase que numa representação da putrefação de sua alma.
Oscar Wilde tem total domínio do enredo encadeando as ações que, num crescente, revelam o lento ocaso do protagonista, dando a Lorde Henry, quase que um alter ego de Wilde, os diálogos mais ácidos e não menos verdadeiros que denunciam a sociedade inglesa conservadora de sua época. A mesma que seria responsável pela decadência de Oscar Wilde, condenando-o e execrando-o, após a prisão devido às práticas homossexuais (proibidas por lei até então, o homossexualismo é uma temática que sutilmente é abordada dentro deste livro e gerou censura na época da publicação). 
Wilde questiona sem moralismos o valor da beleza, a hipocrisia da sociedade que se esconde por trás do superficial e do vazio de seus pensamentos. Por este motivo, O retrato de Dorian Gray acaba sendo uma leitura intrigante e também prazerosa pela sinceridade com que foi desenvolvido e a eletricidade que ainda emana de suas páginas.

12 de fevereiro de 2017

Era apenas um almoço de domingo


Era apenas um almoço de domingo.
Chegaram quase todos ao seu horário com as dificuldades que podiam enfrentar naquele dia: a ressaca, a quase inanição do transporte público, a preguiça, o sono, a ausência de alguém que não poderia vir. Nada de novo até então. Conversas banais, amenidades, trocadilhos e um delicioso almoço à espera. Comeu-se rápida e fartamente, o barulho do contato dos talheres no prato quebrado por conversas esparsas ou vice-versa. Olhares trocados evidenciando a mente que inquiria: “O que farei agora?”, “O que dizer?”, “Qual história engraçada contar?”. Era um silêncio que de início poderia ser constrangedor, mas eloquente na dinâmica daquelas relações amistosas ali. Como quebrar a atmosfera silenciosa num dia tão contagiado pelo mormaço? Filme? Um filme para compensar tamanha quietude. Foram à sala, escoraram-se no sofá, no torpor do pós-almoço. Mal o filme iniciara, o primeiro do grupo sucumbiu e deixou-se levar pelo ir e vir do sono irreprimível, percebeu que outra pessoa também entregara-se aquilo que parecia maior, onipotente. O terceiro também se omitia em silêncio e os três ficaram ali no sono entrecortado pela obra cinematográfica, pontuado pelas preocupações que ocupavam os seus pensamentos já há muito tempo: a iminente volta ao trabalho, conflitos amorosos, ao vazio daquele dia, a luta contra o enjoo, a consciência ainda no torcer-se de ter causado uma péssima impressão a alguém no dia interior, as coisas que procuraria fazer durante a viagem para outro estado, qual conduta escolher após tantos anos distante, longo intervalo não suficiente para acumular saudade do local a ser visitado. Os três dormiram e, ao acordarem, olharam-se compungidos e entenderam-se em seu cansaço, aquele cansaço que extrapola o peso do corpo, massacra mais que a uma surra, compreenderam mutuamente a possibilidade da não resolução fácil dos problemas diários que enfrentavam, mas viram-se cúmplices, parceiros no silêncio daquele dia. O entendimento que não encontrava palavra fácil, apesar de algumas reprimidas na cabeça, apesar de outras entaladas na garganta. Não precisavam de conversas ininterruptas e em volume alto pelo menos não naquele domingo. O estar junto já era suficiente.