12 de fevereiro de 2017

Era apenas um almoço de domingo


Era apenas um almoço de domingo.
Chegaram quase todos ao seu horário com as dificuldades que podiam enfrentar naquele dia: a ressaca, a quase inanição do transporte público, a preguiça, o sono, a ausência de alguém que não poderia vir. Nada de novo até então. Conversas banais, amenidades, trocadilhos e um delicioso almoço à espera. Comeu-se rápida e fartamente, o barulho do contato dos talheres no prato quebrado por conversas esparsas ou vice-versa. Olhares trocados evidenciando a mente que inquiria: “O que farei agora?”, “O que dizer?”, “Qual história engraçada contar?”. Era um silêncio que de início poderia ser constrangedor, mas eloquente na dinâmica daquelas relações amistosas ali. Como quebrar a atmosfera silenciosa num dia tão contagiado pelo mormaço? Filme? Um filme para compensar tamanha quietude. Foram à sala, escoraram-se no sofá, no torpor do pós-almoço. Mal o filme iniciara, o primeiro do grupo sucumbiu e deixou-se levar pelo ir e vir do sono irreprimível, percebeu que outra pessoa também entregara-se aquilo que parecia maior, onipotente. O terceiro também se omitia em silêncio e os três ficaram ali no sono entrecortado pela obra cinematográfica, pontuado pelas preocupações que ocupavam os seus pensamentos já há muito tempo: a iminente volta ao trabalho, conflitos amorosos, ao vazio daquele dia, a luta contra o enjoo, a consciência ainda no torcer-se de ter causado uma péssima impressão a alguém no dia interior, as coisas que procuraria fazer durante a viagem para outro estado, qual conduta escolher após tantos anos distante, longo intervalo não suficiente para acumular saudade do local a ser visitado. Os três dormiram e, ao acordarem, olharam-se compungidos e entenderam-se em seu cansaço, aquele cansaço que extrapola o peso do corpo, massacra mais que a uma surra, compreenderam mutuamente a possibilidade da não resolução fácil dos problemas diários que enfrentavam, mas viram-se cúmplices, parceiros no silêncio daquele dia. O entendimento que não encontrava palavra fácil, apesar de algumas reprimidas na cabeça, apesar de outras entaladas na garganta. Não precisavam de conversas ininterruptas e em volume alto pelo menos não naquele domingo. O estar junto já era suficiente.

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