5 de março de 2017

Multas linguísticas

       As pessoas têm uma ideia equivocada de que todo profissional formado em Letras é alguém que vai monitorar a fala do mundo inteiro e encontrar os erros existentes nela, como se a língua oficial do nosso país se resumisse a uma questão gramatical-ortográfica.
E sempre quando descobrem que você trabalha nessa maravilhosa área das linguagens, surgem as dúvidas mais corriqueiras: “Quando eu uso onde/aonde?”, “E os porquês?”, “Tal palavra é com s ou ss?” e assim por diante. Isso quando não aparecem comentários do tipo: “Vamos falar direito que temos um professor de português ao nosso lado.”, “Ele já deve ter notado um monte de erros no que a gente falou...”, como se, antes de tudo, nós fossemos fiscais da fala alheia a pontuar as inadequações. Não que nós, de vez em quando, não reparemos os momentos em que alguma frase foge daquilo que se estabeleceu como norma-padrão, mas não saímos com um bloquinho de anotações distribuindo multas linguísticas por aí.
O que a população ainda não entende é que existem vários modos de fazer o uso da nossa língua materna, depende da situação (e o grau de formalidade e informalidade que ela vai exigir) em que você se encontra. E que ela não se restringe apenas à norma-culta de comunicação (tanto na oralidade quanto na escrita, apesar de alguns puristas desejarem assim). A língua portuguesa pode ser até uma (no nome), porém são muitas as ditas pelo mundo afora.
Nós, profissionais de Letras, cometemos os nossos errinhos (acredito até que o Bechara, Celso Cunha e o Pasquale também) e, se somos exigentes, é apenas com a própria fala ou escrita. Não dá para ser 100% o tempo todo e nem carregar uma gramática e/ou um dicionário inteiro na cabeça. A memória falha, o esquecimento vem...
O que importa então é a expressividade da língua e também a capacidade e responsabilidade de comunicar uma informação para evitar mal entendidos. Pense sempre onde você está (numa palestra, num boteco, numa reunião da empresa?) e quem é o seu interlocutor (o chefe, o melhor amigo, um recrutador de RH?) e, se for necessário, procure utilizar o máximo daquilo que você conhece sobre a língua em sua forma padrão.
Já a escrita possui uma rigidez maior e nela, na maioria das vezes, você terá que redigir um texto seguindo as normas ortográficas, além de se ocupar com a coesão e a coerência de suas ideias e outros aspectos textuais. No texto escrito um “erro” não tem como ser consertado e fica registrado aos olhos do receptor da mensagem (a não ser que ocorra uma revisão rigorosa anteriormente).
Então, caros leitores, relaxem conosco e consigo mesmos. Para evitar qualquer constrangimento, não custa nada recorrer a um velho hábito que ajuda bastante a melhorar nosso convívio com a complexa língua portuguesa e a dominá-la, além de ampliar o conhecimento de mundo e das pessoas ao redor: o hábito da leitura. Aposto que as dúvidas e o receio de usá-la de uma maneira plena vão diminuir consideravelmente a partir do contato frequente com os livros.

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