5 de julho de 2017

Na Estante 76: A comédia humana - Vol. 4 - Estudo de costumes - Cenas da vida privada: O pai Goriot, O coronel Chabert, A missa do ateu, A interdição, Contrato de casamento, Outro estudo de mulher (Honoré de Balzac)


Livro: A comédia humana - Vol. 4 - Estudo de costumes - Cenas da vida privada (O pai Goriot, O coronel Chabert, A missa do ateu, A interdição, Contrato de casamento, Outro estudo de mulher)
Autor: Honoré de Balzac
Editora: Globo
Ano: 2012
Páginas: 768

É inquestionável a importância de Honoré de Balzac para a literatura universal e ao gênero romance em particular. O romance realista tal e qual nós conhecemos é credor das contribuições de Balzac que ainda hoje faz escola e influencia diversos escritores. Cheguei a esse quarto volume de A Comédia Humana por intermédio de um texto de Roberto Schwarz sobre o livro O Pai Goriot. Schwarz ressalta, no ensaio Dinheiro, memória, beleza (O Pai Goriot), que, antes de tudo, a personagem principal de todas as histórias de Balzac é a própria Paris do século XIX, uma entidade viva e onipresente nas obras escritas pelo francês. Paris, como toda grande capital do mundo, traga os seus moradores ao meio do seu redemoinho social, corrompe, retira quaisquer resquícios de inocência que impede a possibilidade de integração total. Sendo o dinheiro também um elemento unificador de todas as histórias desta série. O ensaio despertou a minha curiosidade e como um Balzac só não é suficiente (a minha intenção era ler apenas O pai Goriot), acabei sucumbindo às outras narrativas que compõem o volume 4  da Comédia Humana.
Por ser um escritor prolífico (Balzac redigiu dezenas de livros ao longo de sua vida) é natural que nem todas as narrativas atinjam um grau de perfeição e este volume também não escapa à irregularidade das histórias. Claro, O Pai Goriot se destaca como uma das maiores obras-primas balzaquianas. A triste e trágica história do Sr. Goriot, um ex-empresário que mora numa pensão decadente, vive num mundo recluso e abnegado, dedicando-se com cega devoção a suprir os caprichos das suas duas filhas, Delphine de Nucingen e Anástacia de Restaud, que estão ascendendo socialmente com bons casamentos, mas exploram o pai financeiramente e o apartam de seu círculo. Na Casa Vauquer circulam os mais diferentes tipos, entre eles, Eugène de Rastignac, jovem que veio do interior para cursar medicina e sente um desejo irrefreável de adentrar na alta sociedade parisiense e acaba tornando-se amante de uma das filhas de Goriot.
Destacam-se também neste livro O Coronel Chabert, onde um oficial dado como morto retorna e percebe que sua presença, ao invés de despertar comoção e felicidade, torna-se um grande problema e incômodo, principalmente à esposa dele. Melancólica, A missa do ateu é uma história curta e comovente sobre fé, respeito e a luta diária de quem busca viver e sobreviver e vencer numa metrópole como Paris.
Balzac é necessariamente cruel ao não abrir concessões no retrato destas personagens às voltas com o egoísmo, a mesquinhez, a ambição, dispostas a tudo para conseguir o que desejam e assim conquistar espaço na já tão disputada alta sociedade, dos quais poucos de fora adentram e resistem, conseguir essa passagem consentida pelos aristocratas significa abrir mão de muitos valores como o próprio Eugène de Rastignac, de O Pai Goriot, o faz.
Em A Comédia Humana muitas personagens aparecem em outras histórias, cruzam-se, citam umas às outras , como velhos conhecidos e acabam o sendo de alguma forma para o próprio leitor que diante do vasto painel de uma sociedade entre fascinante e decadente precisa tomar cuidado para não se perder e ser também corrompido. A Paris de Balzac tem esse poder revelador, Paris que Balzac, num misto conflituoso e contraditório de sentimentos, tanto amou e imortalizou com a sua pena.


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